quinta-feira, 7 de junho de 2012

O julgamento do mensalão

O Supremo Tribunal Federal aprovou ontem, em sessão administrativa, um cronograma de julgamento do processo do mensalão. Pelo cronograma, o julgamento começaria no dia 1º de agosto e se estenderia, pelo menos, até o início de setembro. O calendário, contudo, depende de o ministro Ricardo Lewandowski concluir a revisão do processo até o final de junho. Lewandowski garantiu que entregará a revisão do processo até o final do mês. Será muito bom que tudo isso se confirme. O país já convive com o assunto mensalão há sete anos. Afora o estardalhaço e o sensacionalismo em torno do tema praticado pela revista "Veja", o mensalão não teve maior repercussão junto à opinião pública. A prova disso é que, tendo ocorrido em 2005, o que "Veja" qualifica como "o maior escândalo político brasileiro de todos os tempos" não impediu que, no ano seguinte, o presidente Luís Inácio Lula da Silva conseguisse a sua reeleição, nem que, passados mais quatro anos, a candidata por ele apoiada se tornasse sua sucessora no cargo. Não estou aqui a minimizar a gravidade dos fatos acontecidos, nem a defender a impunidade das pessoas envolvidas. Saúdo a realização do julgamento ainda em 2012 para que não se corra o risco da prescrição de crimes, e para que tenhamos, finalmente um desfecho para o caso. Espero que, provada a culpa de quem quer seja, haja a devida punição. Seria bom que, em caso de condenação, a pessoa fosse banida da atividade política. O mensalão não pode se perpetuar como um assunto em pauta, tem de ser esclarecido de uma vez por todas. No entanto, no meu entender, seja  qual for o resultado do julgamento, não terá repercussão nas urnas. O mensalão é um assunto que empolga a oposição e frequenta rodas de conversa de pessoas mais bem situadas na escala social, mas é, praticamente, ignorado pela grande massa do eleitorado. O eleitor, como se sabe, não vota com o coração nem com o cérebro, mas com o estômago e o bolso. Como nesses dois aspectos, ao menos por ora, a maioria dos brasileiros parece satisfeita, o atual governo não tem o que temer. A tendência é que, em 2014, o PT e seus aliados ganhem mais uma eleição para presidente. Essa perspectiva é mais do que evidente. O resultado do julgamento do mensalão, para frustração de alguns, não terá o poder de alterá-la.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Uma rodada de vitórias

Grêmio e Inter cumpriram bem o seu papel na noite de hoje, no Campeonato Brasileiro. O Grêmio venceu o Atlético Goianiense por 1 x 0, no Serra Dourada. O domínio do jogo foi do Grêmio, que teve maior posse de bola e parecia ser o mandante da partida, já que o time da casa apenas saia em contra-ataques. O Atlético Goianiense praticamente não levou perigo para a defesa do Grêmio, embora tenha tentado uma pressão maior após sofrer o gol. MIralles teve mais uma boa atuação e fez o gol da vitória, por sinal belíssimo, como outros que marcou, dando a dimensão do equívoco que teria sido dispensá-lo. Por incrível que pareça, houve um lado positivo na fratura sofrida por Kléber, pois foi ela a responsável pela permanência de Miralles no grupo, conforme revelou o próprio jogador argentino. Kléber, aliás, voltou com a mesma disposição de antes, não fugindo, em momento algum, das pancadas dos adversários. O lado negativo do jogo foram as atuações ruins, novamente, de Marco Antônio e André Lima. Não foi coincidência, por certo, que o gol tenha acontecido poucos minutos após a saída de ambos do time. André Lima, por sinal, é um caso à parte. Não há mais justificativas para usá-lo sequer como opção de grupo. Seu futebol não está à altura das necessidades do Grêmio. Entre prós e contras, contudo, o Grêmio ganhou seu segundo jogo consecutivo no Brasileirão e já está em quinto lugar na tabela. O técnico Vanderlei Luxemburgo e o gerente de futebol Paulo Pelaipe lamentaram, inclusive, o fato de que o Grêmio poderia estar ainda melhor colocado, se não tivesse sido prejudicado pela arbitragem no jogo contra o Vasco. A outra boa notícia da noite, por parte do Grêmio, é que o time deverá jogar completo contra o Corinthians, domingo, no Olímpico. Como o Corinthians irá jogar com um time inteiramente reserva, abre-se uma forte perspectiva de o Grêmio ganhar a partida e subir ainda mais na classificação. O Inter, por outro lado, segue invicto na competição, da qual já é o vice-líder. Num jogo de baixíssimo nível técnico, ganhou do São Paulo por 1 x 0, no Beira-Rio. Foram poucos os lances de emoção da partida, decidida com um gol de falta, muito bem cobrada por D'Alessandro. Seria interessante saber o que pensam aqueles que, quando da derrota do Inter para o Fluminense na Libertadores, ressaltaram que os dois gols do clube das Laranjeiras foram de bola parada, como se isso fosse um desdouro. A vitória por tão escassa margem e com um gol de falta, retrata bem a pobreza ofensiva do jogo. Em campo estavam dois clubes de camisetas repletas de glórias, mas cujo futebol pífio em nada honrou essa tradição. Para o Inter, todavia, isso pouco importa. Ainda que suas atuações não sejam de todo convincentes, o Inter ganhou mais um jogo e faz ótima campanha, alimentando o sonho de conquistar um título que não alcança há 33 anos. Enfim, a quarta-feira foi gelada para os gaúchos, mas com bons resultados no futebol.

terça-feira, 5 de junho de 2012

A apologia da irresponsabilidade

O futebol, no Brasil, é uma atividade que não respeita as regras mais comezinhas observadas em qualquer outro ramo. Em nome da paixão que desperta em milhões de pessoas, toda a sorte de excessos e transgressões são praticadas nesse meio, sem que haja maiores protestos. Os grandes clubes, embora possuam enorme contingente de torcedores e recebam verbas polpudas da televisão, são mal administrados, gastam mais do que arrecadam, e não honram seus compromissos com o governo. Ainda assim, realizam contratações caras e pagam salários altíssimos para alguns jogadores e técnicos. Os jogadores mais badalados e bem remunerados, por sua vez, portam-se como meninos mimados. Apresentam um comportamento sem nenhum traço de profissionalismo, não justificam em campo as fortunas que ganham, levam uma vida pessoal desregrada. O mais espantoso, contudo, é que por mais que aprontem, tais estrelas do futebol sempre encontram quem queira contratá-los, o que estimula a perpetuação desse tipo de comportamento. A contratação de Ronaldinho pelo Atlético Mineiro é mais um exemplo disso. Ronaldinho foi contratado pelo Flamengo com grande estardalhaço, recebia um alto salário, mas jamais correspondeu, em campo, às expectativas do clube e de seus torcedores. Dedicou-se muito mais às festas e baladas do que aos treinos e jogos. Saiu de seu quarto na concentração do clube na pré-temporada de 2012 para um encontro com uma mulher. Há quem diga que chegou a se apresentar para treinar com sinais de embriaguez. Pois, mesmo sabendo de tudo isso, o Atlético Mineiro, três dias depois da saída de Ronaldinho do Flamengo, contratou o jogador. O mesmo Atlético Mineiro, dias antes, havia contratado Jô, que saiu do Inter por má conduta disciplinar. O futebol, no Brasil, como se vê, não tem parâmetro com nenhuma outra atividade profissional. Em que outro ramo pagam-se salários tão altos sem que haja um mínimo de reciprocidade por parte de quem os recebe? Em que outra atividade a exigência de cumprimento de deveres é tão frouxa e a condescendência com deslizes comportamentais é tão grande? Certamente, em nenhum outro meio profissional se verificam tamanhos descalabros. O futebol brasileiro tornou-se uma ilha da fantasia, feita de irresponsabilidade, inconsequência, perdularismo, descumprimento de deveres. Um futebol que, dentro de campo, é um manancial inesgotável de revelação de talentos, fora dele é um exemplo de caos administrativo e de apologia da conduta irresponsável de dirigentes e profissionais. O pior é que não há nenhum sinal de que isso um dia vá mudar, pois não parece haver qualquer movimento nesse sentido.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O mercado da fé

O Brasil vive, de alguns anos para cá, o fenômeno da expansão das chamadas igrejas evangélicas. Por meio de  canais próprios de televisão ou comprando espaços em emissoras, e com várias rádios espalhadas pelo país, as diversas ramificações evangélicas levam sua mensagem do Oiapoque ao Chuí. Com ênfase na busca da ascensão material dos fiéis, as igrejas evangélicas tem atraído multidões. As pessoas que aderem a essas correntes religiosas são levadas a contribuir com o dízimo, uma quantia que destinam á igreja, e que atinge montantes milionários, capazes de financiar a construção de templos enormes. Alguns pastores evangélicos tornam-se verdadeiras estrelas, alcançando grande popularidade. Esse é o caso, por exemplo, do pastor Silas Malafaia, que há trinta anos apresenta programas de televisão. Malafaia é vice-presidente do Conselho Interdenominacional de Ministros Evangélicos do Brasil (Cimeb), que congrega cerca de 8500 pastores de quase todos os ramos evangélicos. A edição dessa semana da revista "Veja" traz, em suas página amarelas, uma entrevista com Malafaia. Para quem tenha um juízo minimamente crítico, a leitura dessa entrevista é uma experiência traumática. Seu conteúdo é um show de descaramento e desfaçatez. Entre outras coisas, Malafaia destaca, vendo como algo positivo, é claro, o fato de que os padres do movimento carismático católico adotaram uma maneira de pregar que os pastores evangélicos já utilizam há mais de quarenta anos. Como se sabe, essa "maneira de pregar" se caracteriza por uma grande teatralidade e enorme exaltação, capaz de impressionar vivamente os incautos. Malafaia diz que desafia qualquer um a lhe apresentar uma organização que recupere mais pessoas do que as igrejas evangélicas e destaca que elas fazem isso a um custo zero para o governo. Em função disso, revolta-se com aqueles que querem cobrar taxas e impostos das igrejas. Afinal, sustenta Malafaia, os evangélicos não cobram um centavo sequer do governo para livrar as pessoas das drogas, da prostituição, da bebida, e ainda tem impacto positivo na vida profissional dos fiéis. Silas Malafaia acrescenta que muitos empregadores fazem questão de só contratar evangélicos, pois os pastores ensinam ao fiel que ele, quando está trabalhando, deve servir ao patrão como se estivesse servindo ao próprio Deus, já que é o que a Bíblia ensina. As barbaridades ditas por Malafaia prosseguem ao longo da entrevista, como quando admite que as igrejas evangélicas praticam o exorcismo, mas não podemos nos ocupar de todas. Fixemo-nos então, nos trechos finais, que demonstram claramente quem é Malafaia e quais são os seus propósitos. Depois de, numa das perguntas iniciais, ter dito que está construindo um templo lindo, com ar-condicionado central, ao custo de R$ 4 milhões, Malafaia revela que, em 2011, sua igreja arrecadou R$ 20 milhões. O salário que paga para os pastores, dependendo da função e do tempo dedicado varia entre R$ 4 mil e R$ 22 mil. Malafaia justifica dizendo que "uma pessoa não pode ser incumbida de cuidar de vidas se a cabeça dela estiver focada em arranjar dinheiro para pagar as contas". A verdadeira face de Silas Malafaia aparece nas últimas perguntas. Ao ser perguntado se está rico, Malafaia revela que tem uma "boa casa" no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, pela qual pagou R$ 600 mil, e que hoje vale R$ 2,5 milhões. Possui, ainda, "alguns apartamentos" e uma casa em Boca Raton, no estado da Flórida (EUA), que diz ter comprado para pagar em trinta anos. Em 2011, Malafaia ganhou de presente de um "parceiro" um Mercedes-Benz blindado. Em 2010, comprou um jato Gulfstream, ano 1986, por U$ 3 milhões. Porém, Malafaia sustenta que o jato não pertence à igreja nem a ele, mas à associação que administra as obras sociais e custeia o tempo de televisão. Malafaia declara que nunca será candidato a nada, nem a "assistente de carimbador de vereador", mas que quer influenciar pessoas e, por isso mesmo, não sataniza partido político nem candidaturas, já tendo votado em Fernando Henrique Cardoso, Luís Inácio Lula da Silva e José Serra. O fecho de ouro da entrevista se dá com a admissão, por parte de Malafaia, de que fez um implante de cabelo. Malafaia disse que o implante ficou "muito bom" e que custou R$ 20 mil. "Fiz com o mesmo médico do Zé Dirceu e do Agripino", revelou, referindo-se ao ex-ministro José Dirceu e ao senador José Agripino Maia (DEM-RN). Depois de ler a entrevista, só mesmo um imbecil poderá se deixar levar pela retórica de Malafaia. O sucesso dele e de outros pastores do gênero, é uma prova cabal de que o ser humano tem propensão a ser feito de bobo. São espertalhões que prosperam fazendo os outros de otários.

domingo, 3 de junho de 2012

Ducha de água fria

A derrota da Seleção Brasileira para o México por 2 x 0, hoje, no Cowboys Stadium, em Dallas (EUA), foi uma reversão de expectativa para os torcedores. Depois de duas vitórias afirmativas sobre Dinamarca e Estados Unidos, com bom desempenho coletivo e belas atuações individuais, esperava-se que a Seleção Brasileira mantivesse o padrão de rendimento, mas não foi o que aconteceu. Confirmando que se tornou um algoz frequente da Seleção, o México venceu com méritos e não teve sua vitória ameaçada em momento algum. A Seleção Brasileira não encontrou soluções em campo. Neymar sucumbiu à marcação e não conseguiu mostrar seu futebol. Tanto Leandro Damião quanto Alexandre Pato não acharam o caminho das redes. Marcelo não repetiu sua exuberante atuação anterior. Claro que a derrota não é motivo para pessimismo, assim como as vitórias precedentes não justificavam nenhuma euforia. O resultado foi uma ducha de água fria, mas a Seleção tem um grupo de boa qualidade, que pode recuperar-se de imediato, transformando a derrota para o México num tropeço episódico. O próximo jogo, o último dessa série de amistosos, será contra a Argentina, sábado, em New Jersey (EUA). Para muitos, entre os quais me incluo, trata-se do maior clássico do futebol mundial. O retrospecto, nos últimos anos, tem sido favorável à Seleção Brasileira, mas, numa partida dessa envergadura, tudo pode acontecer. O melhor de tudo será o privilégio de se poder assistir a Neymar, de um lado, e Messi, do outro. Afora um grande jogo, o que os brasileiros esperam é que a Seleção volte a se impor, e, assim, impeça uma instabilidade que, às vésperas das Olimpíadas, poderia ser muito prejudicial para a equipe.

sábado, 2 de junho de 2012

Voracidade capitalista

No capitalismo, é sabido, só o que importa é o lucro. Em nome de aumentarem seus ganhos, os empresários praticam toda a sorte de ações exploratórias da mão-de-obra. Afora os prejuízos causados aos trabalhadores, a população como um todo se ressente dos efeitos de tal postura. Um exemplo disso é o que vem acontecendo em supermercados e hipermercados de Porto Alegre. Apesar da existência de uma lei municipal, aprovada em 2010, que prevê que os supermercados com mais de quatro caixas devem contar com o serviço de empacotador, a regra não vem sendo observada em vários estabelecimentos. Isso gera muitos transtornos. O mais evidente deles é a lentidão no empacotamento das mercadorias, resultando na formação de longas filas. Isso porque, na ausência de um funcionário específico para proceder o empacotamento, o caixa tem de acumular essa função ou o próprio cliente tem de fazê-lo. Em redes de supermercado como Nacional/Big Shop, Carrefour e Rissul, o caixa ainda tem de pesar hortigranjeiros e frutas, receber faturas de água, luz e telefone, e fazer recarga de celulares. Na busca de faturar mais, tais estabelecimentos suprimem uma função, diminuindo postos de trabalho, obrigam os caixas, trabalhadores que recebem apenas um salário mínimo, a desempenhar múltipla atividades, e prejudicam os consumidores. O pior é que, em vez de desculpar-se e prometer uma mudança de atitude, o presidente da Associação Gaúcha de Supermercados, Antônio Cesa Longo, diz que a iniciativa privada tem a opção de utilizar ou não os empacotadores. Longo afirma que cada estabelecimento tem o direito de decidir sobre o oferecimento desse serviço, e declara ser contrário a interferência do poder Legislativo nesta questão. Até aí nenhuma novidade. Empresários adoram a ideia do estado mínimo, que nada fiscaliza, permitindo a implantação de um capitalismo sem freios. A ausência de empacotadores é um desrespeito flagrante a uma lei municipal, o que torna imperiosa a punição dos infratores. Trata-se de mais uma prova de que o estado mínimo é uma balela que só serve a quem quer encher os bolsos explorando os trabalhadores e lesando os consumidores. Evidencia também que a presença do poder estatal é indispensável para coibir abusos da iniciativa privada. Ao contrário do que vem sendo postulado por arautos da "modernidade", precisamos, cada vez mais, de um Estado forte e atuante.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Em busca do encanto perdido

O futebol é o esporte preferido da maioria das pessoas em todo mundo, e movimenta multidões que frequentam os estádios e assistem os jogos pela televisão. Gera ídolos, constrói fortunas. Porém, tornou-se uma atividade que envolve enormes quantias na aquisição de jogadores, nos salários pagos para eles e outros profissionais, nos direitos de transmissão das competições, nas comissões de empresários e agentes, e isso acabou por corrompê-lo. Hoje, o interesse financeiro está acima de tudo. Jogadores fazem questão de dizer que vão para onde lhes pagarem melhor. Seus empresários, por vezes, estabelecem um verdadeiro leilão, um "quem dá mais", para definir para quais clubes eles irão. Os contratos estabelecem altas multas rescisórias, para ambas as partes. Tudo gira em torno de cifras altíssimas. Tanto dinheiro, é claro, atraiu a atenção dos corruptos que, movidos pela possibilidade de obter grandes lucros, passaram a atuar na manipulação de resultados de jogos incluídos em loterias e bolsas de apostas. Há exatos 30 anos, em 1982, estourou no Brasil o caso da "máfia da Loteria Esportiva", com a revelação de que os jogos incluídos nessa modalidade de apostas eram alvo da ação de pessoas que subornavam jogadores e árbitros para manipular o resultado das partidas, alcançando, assim ganhos milionários. A Loteria Esportiva, que havia sido instituída no país em 1970 e obtivera enorme sucesso popular, alçando muitas pessoas humildes à fortuna, ficou desmoralizada e jamais recuperou sua credibilidade, acabando por ser extinta. A retomada dessa forma de loteria foi tentada, mas não obteve êxito. Ainda no Brasil, em 2005, aconteceu o escândalo da manipulação de resultados que levou a que 11 jogos do Campeonato Brasileiro, todos apitados pelo árbitro Edílson Pereira de Carvalho (SP), tivessem de ser realizados novamente. O problema, contudo, não se restringe ao Brasil. Sua face mais grave se apresenta na Itália. Lá, os casos de corrupção no futebol são cíclicos e já geraram suspensões de jogadores e até a cassação de títulos de campeão. No entanto, apesar do rigor das punições, é uma situação longe de ser solucionada. Novos denúncias de manipulação de resultados surgiram no futebol italiano e já tiveram como consequência, entre outros fatos, o corte do lateral-esquerdo Criscito da seleção da Itália que se prepara para a Eurocopa. O primeiro-ministro da Itália, Mário Monti, chegou a sugerir que o futebol fosse paralisado no país por dois ou três anos, para que se pudesse reorganizá-lo. O técnico da seleção da Itálai, Cesare Prandelli, disse que aceitaria que, diante da situação que vive o futebol do país nesse momento, sua equipe não participasse da Eurocopa. O que está ocorrendo no futebol italiano deveria servir para reflexão não só naquele país, mas em todos os lugares onde é praticado esse esporte tão apaixonante. O futebol encanta multidões, mas como qualquer atividade, precisa de credibilidade. A avidez pelo dinheiro está conspurcando o futebol. Algo há de ser feito para resgatar a sua dignidade.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Desfecho inevitável

A saída de Ronaldinho do Flamengo, com uma rescisão unilateral de contrato, estabelece o desfecho inevitável de um relacionamento que ia de mal a pior. Na verdade, tudo esteve errado, desde o início, nessa contratação. O Flamengo, ao trazer Ronaldinho, pensava no jogador que ele tinha sido, mas não era mais. Firmou um contrato demasiadamente longo, com um jogador que já estava com 30 anos, e por valores elevadíssimos. O clube fez uma apoteótica festa de apresentação de Ronaldinho para a torcida. Enfim, tudo o que envolveu a transação entre Flamengo e Ronaldinho foi marcado pelo exagero. Ronaldinho até teve um primeiro ano razoável no Flamengo, com o clube sendo campeão estadual e se classificando para a Libertadores. Porém, foram poucas as partidas em que ele, efetivamente, apresentou um grande futebol. Terminado o ano de 2011, a impressão de todos, clube, torcida e imprensa, era de que Ronaldinho ficara devendo. Em 2012, a situação se tornou insustentável. Ronaldinho esteve mais empenhado nas suas festas do que em jogar futebol. O Flamengo atrasou seus salários. Dentro de campo, o Flamengo desandou. Não ganhou sequer um dos turnos do campeonato estadual e foi o único clube brasileiro eliminado na primeira fase da Libertadores. A torcida não queria mais Ronaldinho, o clube não o suportava. Ronaldinho, de sua parte, também já não demonstrava qualquer comprometimento com o Flamengo. Atravessava as noites em festas, atrasava-se para os treinos, jogava cada vez pior. A substituição no segundo tempo do jogo contra o Inter, a primeira desde que Joel Santana assumira como técnico, que lhe rendeu uma estrepitosa vaia da torcida, e a gravação feita por torcedores, no Piauí, de uma declaração do vice-presidente de futebol do Flamengo, Paulo César Coutinho, de que ele já estava afastado do clube parece ter sido a gota d'água para Ronaldinho. Hoje, o jogador recorreu à Justiça, rompendo seu contrato com o Flamengo, sob a alegação de atraso de salários e de direitos de imagem e ausência de depósitos do FGTS e INSS. Termina de forma melancólica uma contratação feita com grande alarde. Uma contratação que, do início ao fim, foi uma demonstração de má avaliação técnica e irresponsabilidade financeira por parte do clube, e de total falta de comprometimento e profissionalismo do jogador. Um exemplo de como não se deve proceder no futebol.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

O renascimento da Seleção Brasileira

Após quase dois anos de trabalho do técnico Mano Meneses, finalmente a Seleção Brasileira começa a mostrar um futebol à altura da sua tradição. O melhor de tudo é que uma equipe renovada, cujos maiores valores são jovens que poderão ter uma longa trajetória com a camisa da Seleção. Esse é o caso de Neymar, Marcelo e Oscar. Os dois últimos já haviam jogado muito bem na vitória de 3 x 1 sobre a Dinamarca no sábado, em Hamburgo. Voltaram a fazê-lo, hoje, na goleada de 4 x 1 sobre os Estados Unidos, em Washington. Neymar, que não jogou no sábado, juntou-se aos dois, na partida de hoje, em termos de alto desempenho. Nos dois jogos, afora o bom nível do futebol apresentado, a Seleção Brasileira mostrou interesse, atitude, disposição, em nada lembrando a equipe amorfa das outras partidas em que foi dirigida por Mano Meneses. O trabalho do técnico também já se mostra mais visível, com jogadas ensaiadas e boa mecânica de jogo. Com talentos como os já citados, e outros como Lucas, que ainda não deslanchou mas é um jogador de grande qualidade, e com a predominância de jogadores jovens, a Seleção tem grandes chances de obter a medalha de ouro nas Olimpíadas, o que, até hoje, não alcançou. Essa mesma base de equipe, já mais amadurecida, tem tudo para brilhar na Copa do Mundo de 2014. Pode ser cedo para fazer juízos mais definitivos, mas a amostragem dos dois amistosos foi bastante animadora, e contra adversários que, se não são seleções de ponta, possuem boa qualidade. A Seleção Brasileira, depois de um longo tempo, parece estar recuperando o seu brilho. Antes tarde do que nunca.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Equívoco

A Comissão de Juristas do Senado, que discute mudanças no Código Penal, aprovou uma proposta para descriminalizar o porte de drogas para consumo próprio. Pelo texto aprovado, não haveria mais crime no caso de uma pessoa ser flagrada usando entorpecentes. Atualmente, essa conduta é sujeita à aplicação de penas alternativas. O projeto sugere ressalvas, com o cidadão podendo responder processo caso consuma ostensivamente entorpecente em locais públicos, nas imediações de escolas ou outros locais que concentrem crianças e adolescentes ou na presença destes. Com ou sem ressalvas, contudo, o projeto me parece um equívoco. A questão do consumo de drogas é um desafio permanente para os governos, que não encontram uma solução adequada para o problema, que se constitui numa verdadeira chaga social. Talvez nem haja uma solução ideal, já que não há como alterar comportamentos editando leis. Porém, a medida proposta só iria facilitar ainda mais a disseminação do consumo de drogas, ampliando seus efeitos nefastos na sociedade. Dentro de um conceito filosoficamente libertário se poderia sustentar que o indivíduo tem o direito de determinar seus próprios atos, inclusive drogando-se, se assim o desejar. O poder público, todavia, não pode ser um elemento passivo diante de tão grave questão. O uso de drogas deve continuar a ser combatido. Não se pode colocar o usuário de drogas como uma vítima ou um doente que merece ser tratado de forma indulgente. As pessoas são responsáveis por suas escolhas, e devem arcar com as consequências delas. Sei que minha opinião está na contramão da tendência em relação ao assunto, mas não vejo nenhum benefício no fim da repressão ao uso de drogas. Há situações em que as vontades individuais tem de se submeter a um interesse social maior. O consumo de entorpecentes é uma delas. Liberá-lo significa fragilizar a sociedade, comprometendo seu futuro.