quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Sem ilusões
Os resultados de Grêmio e Inter, nos jogos de hoje à tarde, serviram para que as últimas ilusões quanto à classificação de ambos para a Taça Libertadores da América, praticamente, se desfizessem. O Grêmio, jogando em casa contra o modesto Figueirense, foi, simplesmente, um fiasco. Perdeu por 3 x 1, e poderia ter sido muito mais. A atuação do time foi catastrófica. Ninguém se salvou. Victor voltou a tomar um frango, os laterais foram inoperantes, o miolo de zaga mais parecia uma passarela por onde desfilavam os atacantes adversários, o meio de campo naufragou com Fernando sendo, apenas, esforçado, Fábio Rochemback péssimo, Marquinhos, Douglas e Escudero sem nenhuma inspiração. Como solitário atacante, André Lima foi, absolutamente, ridículo. Os jogadores que entraram no segundo tempo também não deram boa contribuição. Gilberto Silva foi envolvido no terceiro gol do Figueirense, Miralles foi inoperante e Diego Clementino teve empenho, mas sem objetividade. Se antes as chances de classificação para a Libertadores eram pequenas para o Grêmio, agora passaram a ser um devaneio. Melhor se preocupar em obter logo a garantia matemática da fuga do rebaixamento, para a qual ainda faltam seis pontos. Já o Inter, jogando fora de casa contra o São Paulo, em Barueri, obteve um resultado que, isoladamente, poderia ser considerado bom, mas, nas atuais circunstâncias, não o favoreceu. Precisando de pontos para subir na tabela e, ainda, tentar uma classificação para a Libertadores, não passou de um empate em 0 x 0 com o São Paulo. O Inter foi melhor em campo, teve as maiores chances de gol, mas ressentiu-se da ausência de um ataque mais qualificado. Delatorre, mais uma vez, não jogou bem, acentuando a falta que faz Leandro Damião para o time. O Inter fará seus dois próximos jogos em casa, um teoricamente fácil, diante do Avaí, e o outro um confronto direto contra um dos primeiros colocados na tabela, o Corinthians, mas os resultados paralelos não tem ajudado, fazendo com que as chances de classificação para a Libertadores sejam muito reduzidas. Foi uma rodada para desfazer ilusões na dupla Gre-Nal. Dela restou um Grêmio devastado e um Inter agarrado, apenas, em tênues possibililidades matemáticas. O Campeonato Brasileiro, daqui para a frente, servirá, tão somente, para que os dois projetem seus rumos para 2012.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Brio
No amistoso dessa noite contra o México, enfim, a Seleção Brasileira ofereceu para o torcedor algo mais do que um futebol apático e sem soluções. A vitória de virada, por 2 x 1, esteve longe de representar uma grande façanha, é claro, mas um elemento, que andava ausente das atuações da equipe, reapareceu. A Seleção Brasileira teve brio. Depois de iniciar o jogo mostrando o mesmo mau futebol de outras partidas, fazer um gol contra, sofrer a marcação de um pênalti e ter um jogador expulso, a Seleção despertou. O pênalti foi defendido por Jéfferson, o que, por certo, ajudou a dar moral para a equipe. Porém, foi a inconformidade com os erros do árbitro que motivou a Seleção. O árbitro teve uma atuação fraca e confusa, que, em alguns momentos, exasperou os jogadores brasileiros. Porém, em vez de redundar em novas expulsões, a indignação dos jogadores serviu para fazer a equipe reagir e virar o jogo com um homem a menos, na casa do adversário. Ronaldinho cobrou com precisão uma falta, voltando a marcar um gol pela Seleção depois de quatro anos. No entanto, o gol que demonstrou a reação da equipe em campo foi o segundo. O gol de Marcelo teve, a um só tempo, técnica e raça. Ele parte da lateral do campo, chega até as proximidades da grande área, tabela com um companheiro e, ao receber a bola de volta desfere um belíssimo chute cruzado, forte, no alto do gol. Um golaço. Na comemoração, recebe e retribui o abraço efusivo do técnico Mano Menezes, que o deixara fora de algumas convocações, por ter o jogador, segundo se diz, mostrado desdém pela Seleção. O episódio, ao que parece, está totalmente superado, não só pelo gol e pelo abraço, mas pela atuação de Marcelo. Finalmente, o lateral esquerdo mostrou, com a camisa da Seleção, o mesmo futebol exuberante que joga no Real Madrid. Foi, sem dúvida, o melhor jogador em campo. Marcelo é um jogador precioso, pois, além de excelente compleição física, tem um futebol de grande técnica. Ainda é pouco, mas a Seleção Brasileira já mostrou, contra o México, que pode dar mais. Com isso, Mano Menezes afasta, ao menos por um tempo, as especulações sobre a sua saída. Tomara que o jogo de hoje seja um indício, ainda que tênue, de que a Seleção viverá dias melhores daqui por diante.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Estranhos critérios
O público vem acompanhando, pela imprensa, a "novela" em que se transformou a reforma do estádio Beira-Rio, para utilzação na Copa do Mundo de 2014. As obras estão paradas há meses, e já quem diga que não estarão concluídas a tempo do estádio sediar jogos pela Copa das Confederações, em 2013. Há quem afirme, também, que o Grêmio estaria agindo nos bastidores para que os jogos da Copa de 2014 em Porto Alegre sejam levados para o seu novo estádio, que será inaugurado em novembro de 2012. O que não se vê ser questionado na imprensa é porque o Beira-Rio foi escolhido como o estádio de Porto Alegre para a Copa. O Brasil foi designado como sede da Copa em 2007, portanto, sete anos antes da realização da competição. Um período tão largo de tempo permite a construção de vários estádios novos. Ora, a CBF sabia, porque o próprio clube lhe dera ciência naquele mesmo ano, de que o Grêmio iria construir um novo estádio, inteiramente dentro dos padrões da FIFA. Sendo assim, porque a pressa em escolher um estádio construído há mais de 40 anos, que teria de sofrer reformas para se adaptar aos padrões da FIFA? A atitude torna-se ainda mais incompreensível quando se vê o que ocorreu em São Paulo. Lá, o Morumbi foi recusado como estádio para a Copa e decidiu-se pela construção de um novo, que pertencerá ao Corinthians, e cujas obras ainda não passaram da fase de terraplenagem. Claro que há toda sorte de maquinações políticas envolvendo tais decisões, mas é incrível que a imprensa do Rio Grande do Sul não questione tal fato. Os torcedores do Inter, quando o Grêmio ampliou o Olímpico, passaram a chamar o estádio de "remendão". Pois é, nada como o tempo. O Beira-Rio também se transformará num "remendão". Estranho, para dizer o mínimo, é que um estádio reformado seja escolhido em detrimento de um novo, maior e mais moderno. Até por uma questão de equidade, o estádio do Grêmio deveria ser o escolhido dessa vez, já que, na Copa de 1950, a indicação recaiu sobre os Eucaliptos, de propriedade do Inter. A escolha do Beira-Rio como estádio de Porto Alegre para a Copa de 2014 é uma afronta ao bom senso. Esse é o ângulo da questão que mais deveria ser explorado pela imprensa. Inexplicavelmente, no entanto, tem sido ignorado.
domingo, 9 de outubro de 2011
Festa vermelha
Foi uma vitória afirmativa do Inter, como há muito tempo não se via. Hoje à tarde, no Beira-Rio, o Inter goleou o Vasco, até então o líder do Campeonato Brasileiro, por 3 x 0, e poderia ter sido mais. O placar ainda estava em 1 x 0 quando João Paulo, do Inter, cometeu um pênalti claro sobre Diego Rosa, do Vasco. O árbitro não só não marcou o pênalti, como ainda deu cartão amarelo para Diego Rosa, por simulação. Uma dupla injustiça. Porém, erros de arbitragem à parte, a produção do Inter em campo foi tamanha que, provavelmente, venceria o jogo de qualquer maneira. O goleiro do Vasco, Fernando Prass, mesmo levando três gols, foi um dos melhores jogadores em campo, praticando grandes defesas. O Vasco, afora uma bicicleta de Diego Souza, não levou quase perigo para o goleiro do Inter, Muriel. D'Alessandro, Andrezinho e João Paulo tiveram atuações destacadas, e Índio reafirmou sua condição de zagueiro goleador. O Inter venceu com sobras e voltou a ter esperanças de classificação para a Libertadores, embora esteja três pontos atrás do chamado "G5". O próximo jogo, no entanto, contra o São Paulo, em Barueri, será dificílimo. Se, contudo, o Inter obtiver um bom resultado, suas chances se ampliarão bastante, pois o jogo seguinte, contra o Avaí, no Beira-Rio, parece ser uma vitória quase certa. Na eterna gangorra Gre-Nal, esse fim de semana foi o inverso do anterior. Na semana passada, o Grêmio ganhara e o Inter perdera. Agora, foi o contrário. O que chama a atenção é que o derrotado foi sempre o clube que jogou fora de casa. O que deixa claro para os dois clubes que eles nada conseguirão de melhor no Brasileirão se não vencerem jogando como visitantes. Momentaneamente, todavia, a festa está do lado vermelho, e as preocupações retornaram para o lado azul. Até quando? Só as próximas rodadas dirão.
sábado, 8 de outubro de 2011
A cara do Grêmio
Há um ditado popular que expressa que o peixe morre pela boca. Trata-se de verdade reconhecível por qualquer pessoa, mas há quem teime em falar demais. Após a vitória do Grêmio sobre o Santos por 1 x 0, na quarta-feira, no Olímpico, o presidente Paulo Odone e o técnico Celso Roth não pouparam críticas aos treinadores anteriores do clube, em 2011, e fizeram a exaltação do atual trabalho. Odone recorreu ao seu velho discurso e disse que, agora, o time tinha "cara de Grêmio" e que é desse jeito "que se põe faixa". Afora o lamentável ataque ao maior ídolo do clube, Renato, Odone se esqueceu de algumas coisas fundamentais. O Grêmio acabara de ganhar um jogo, apenas, e por escasso 1 x 0. O Campeonato Brasileiro ainda teria vários jogos pela frente e o próximo adversário, o Coritiba, fora de casa, seria dificílimo. Portanto, não havia sentido em fazer um desabafo como se o Grêmio já tivesse conquistado algo de significativo nesse momento. Não conquistou e, provavelmente, não conseguirá fazê-lo. A prova está no jogo de hoje à tarde contra o Coritiba, na casa do adversário. O Grêmio perdeu por 2 x 0, de forma inapelável, sem conseguir criar uma única chance de gol durante todo o jogo. A saída por lesão de Brandão, ainda no primeiro tempo, foi a desculpa ouvida no vestiário para o mau resultado. Porém, não há o que justifique uma atuação tão ridícula como a do Grêmio no jogo de hoje. A falta de atacantes, em função das lesões, fez com que Diego Clementino fosse escalado e Yuri Mamute, de apenas 16 anos, tivesse de fazer sua estréia no segundo tempo. Isso em nada absolve os dirigentes do Grêmio. Pelo contrário, demonstra sua imprevidência ao não terem reposto os atacantes que deixaram o clube, quer fossem titulares, como Jonas e Borges, ou alternativas de grupo, como Júnior Viçosa e Lins. Dessa forma, o Grêmio não poderia ter tido melhor sorte contra o Coritiba. Foi amplamente batido, sem esboçar reação em qualquer momento. Odone adora falar na "cara do Grêmio". Pois, hoje, ela foi vista. Uma cara muito feia, de quem, há dez anos, caminha do nada para o lugar nenhum, sem conquistar grandes títulos, sem honrar sua grandeza, sem dar esperanças de dias melhores ao seu torcedor, apostando nas mesmas e equivocadas soluções, repetindo, cansativamente, desculpas esfarrapadas que todos conhecem.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Futebol inconvincente
Os amistosos se sucedem, mas o futebol da Seleção Brasileira continua sem convencer. Sejam os adversários modestos ou mais qualificados, a produção da Seleção é, invariavelmente, insuficiente. No jogo de hoje à noite, contra a Costa Rica, não foi diferente. Mesmo diante de um adversário de pouca expressão, a Seleção Brasileira rendeu pouco. No primeiro tempo, a equipe brasileira chutou uma única bola ao gol, com Fred. O pior é que sequer foi uma jogada trabalhada, mas uma sobra de bola. No segundo tempo, a Seleção aumentou um pouco a sua produção e, quando o jogo parecia que iria ficar no empate, conseguiu a vitória por 1 x 0. Ainda é muito pouco para o que se espera de uma Seleção Brasileira. Agora, virá outro amistoso, contra o México, na terça-feira. Tomara que a Seleção consiga mostrar um melhor futebol. O problema é que a cada jogo, transfere-se essa expectativa para a partida seguinte, e nada acontece. Está cada vez mais difícil acreditar que Mano Menezes consiga ter êxito como técnico da Seleção Brasileira.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Apresentação memorável
O show de Eric Clapton, hoje à noite, em Porto Alegre, merece, sem nenhum exagero, a classificação de memorável. O show é relativamente curto, tem apenas uma hora e meia de duração. O bis tem apenas uma música. Bem diferente, portanto, do show de Paul McCartney, em 2010, com suas quase três horas de duração e quatro músicas no bis. Clapton também não interage com a platéia como Paul, limitando-se ao "thank you" ou a um "obrigado", carregado de sotaque. Mas, então, porque o show foi memorável? Porque Clapton é um gênio da guitarra, seu domínio do instrumento é fantástico. Clapton esbanja virtuosismo em longos solos que extasiam a platéia. Seu desempenho vocal também é digno de nota, pela maneira como se entrega à interpretação. Os músicos que o acompanham, o baixista Willie Weeks, o baterista Steve Gadd e o tecladista Chris Stanton são muito qualificados, assim como as backing vocals Michelle John e Sharon White. Clapton é arredio ao contato com o público e se esquiva da imprensa, mas, no que interessa, a qualidade de seu show, seu desempenho é brilhante. O rosto já não esconde a passagem do tempo. Clapton está com 66 anos. Porém, as mãos continuam ágeis, dedilhando as cordas de uma guitarra como só um gênio é capaz de fazer. Pode ter sido a última apresentação de Clapton em Porto Alegre. Se você não foi, não sabe o que perdeu.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Novas perspectivas
A vitória do Grêmio de 1 x 0 sobre o Santos, hoje à noite no Olímpico, em jogo atrasado da 11ª rodada do Campeonato Brasileiro, abre novas perspectivas para o clube na competição. O Grêmio está, agora, apenas um ponto atrás de seu maior rival, o Inter, e a uma distância de cinco pontos da zona de classificação para a Taça Libertadores da América. A ameaça de rebaixamento praticamente inexiste e a hipótese de classificação para a Libertadores, ainda que permaneça remota, já não é uma cogitação delirante. No jogo de hoje, o Grêmio procurou pressionar o Santos desde o início. Já aos 20 segundos do primeiro tempo, teve uma falta perigosa a seu favor. Criou, logo a seguir, outras chances de gol e, aos 8 minutos, fez 1 x 0. A partir daí, ao longo do jogo, teve várias oportunidades de ampliar o placar. O Santos, passado o susto inicial com o ímpeto do Grêmio, também criou muitas chances, mas não soube transformá-las em gols. Foi um jogo de boa qualidade, só decidido no apito final do árbitro, mas o Grêmio venceu com méritos, por ter sido o melhor time em campo, fato reconhecido até pelo técnico adversário. Todos no Grêmio jogaram bem, individual e coletivamente. O próximo jogo do Grêmio será dificílimo, contra o Coritiba fora de casa, e o time não contará com Douglas. As recentes vitórias contra o Bahia e o Avaí provam, no entanto, que jogar fora de casa já não é um drama para o Grêmio como em tempos recentes. O Grêmio, mais uma vez, dá a impressão de ter engrenado e, se isso se confirmar, sonhos que antes pareciam inatingíveis poderão se tornar realidade.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Soberania
As exigências da FIFA para a realização da Copa do Mundo de 2014 despertaram, em algumas pessoas, reações de um nacionalismo exacerbado. Exige-se que a presidente Dilma Roussef afirme a soberania do Brasil diante da instituição que comanda o futebol mundial. Itens como o Estatuto do Idoso e a proibição de venda de bebidas de álcool nos estádios, que a FIFA quer que tenham sua aplicação suspensa durante a Copa de 2014, são defendidos com unhas e dentes por tais pessoas. Ora, antes de partir para um discurso radical, é preciso ponderar algumas coisas. Se é verdade que a FIFA, em seu caderno de encargos, estipula muitas exigências para os países organizadores de Copas, a ponto de parecer que assume o controle dos mesmos durante a realização da competição, também é fato que ninguém é forçado a aceitar isso. Se não quiser se submeter às exigências da FIFA, basta que o país não se candidate a organizar uma Copa. Um país, ao postular ser a sede de uma Copa do Mundo, sabe, de antemão, de todos os requisitos que terá de cumprir caso seja escolhido para realizar a competição. A questão do ingresso mais barato para idosos é socialmente justa e pode até ser objeto de uma negociação, mas, no que diz respeito à venda de bebidas nos estádios a FIFA tem toda a razão em não ceder. Primeiro, porque entre seus patrocinadores está uma cervejaria, e, em segundo lugar, porque tais leis, que só são aplicadas em alguns estados, não em todos, são demagógicas e ineficientes. Não se proíbe as pessoas de beberem baixando leis. Os torcedores, impedidos de adquirir bebidas nos estádios, bebem em bares situados no entorno. Com isso, os torcedores deixam para entrar no estádio próximo ao horário de início do jogo, o que causa tumulto nos portões de acesso, como se viu, por exemplo numa partida entre Grêmio e Cruzeiro, no Olímpico, pelas semifinais da Libertadores de 2009. O Brasil, ao se candidatar para sediar a Copa de 2014, sabia de todos os itens que teria de cumprir. Não é hora de bravatas nacionalistas, e, sim, de honrar o compromisso assumido.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
O lucro no ensino
Na chamada "sociedade de mercado", tudo deve visar ao lucro. Em tal modelo de sociedade, a livre iniciativa não pode ser ameaçada e o Estado não deve interferir no mercado. Com a prevalência do modelo capitalista, ditada pelo fim da Guerra Fria, vivemos tempos em que tudo é privatizável, mesmo coisas que antes eram de nítida responsabilidade estatal. É o caso, por exemplo, das estradas. Sua construção e conservação são deveres óbvios do poder público, mas, nos dias tresloucadamente neoliberais de hoje, o indefeso cidadão é obrigado a pagar os execráveis pedágios, que assaltam o seu bolso, enriquecem as concessionárias do serviço, e, o que é pior, não garantem, mesmo assim, estradas em boas condições. Nessa ânsia do lucro fácil às custas dos cidadãos desprotegidos, nem mesmo o ensino, antes dotado de uma condição de idealismo, escapou. As consequências disso já se fazem sentir no Chile, país que se deixou seduzir pelas idéias privatistas. Há mais de quatro meses, o Chile enfrenta a maior crise educacional de sua história. Não é difícil entender o porquê. O sistema educacional chileno, tão elogiado pelos direitistas, resulta em universidades com um alto custo em proporção á renda da população. O governo chileno investe nas universidades apenas 0,3% do PIB, um dos menores índices dentre todos os países do mundo. Com isso, os cidadãos e as empresas gastam 1,7% do PIB com o ensino superior. Para poderem formar os filhos, muitas famílias recorrem a empréstimos. O governo do Chile criou um financiamento para estimular o ingresso dos jovens pobres e de classe média nas faculdades, porém a taxa de juros cobrada é elevada. A consequência é que os estudantes se formam devendo quantias exorbitantes. Afora isso, o crédito cobre apenas parte das mensalidades e, para financiarem o restante, as famílias também acabam acumulando divídas. O fato do Chile ter o melhor resultado da América Latina no último Pisa, teste de qualidade da educação, não absolve o perverso sistema de ensino do país. Os estudantes chilenos se rebelaram contra os que transformaram a nobre tarefa do ensino em apenas mais uma forma de obter lucro. Uma das faixas dos manifestantes chilenos expressava: "Não mais educação de mercado". Camila Vallejo, presidente da Federação de Estudantes da Universidade do Chile disse: "Mostramos para o mundo que nossa educação não era o exemplo que se pensava". Camila e seus companheiros de luta exigem a proibição do lucro no ensino, no que estão absolutamente certos. Apesar de publicações de direita, como a revista brasileira "Veja", entenderem que isso poria abaixo um sistema de ensino que é "o mais bem-sucedido da região", não se pode negar que a nobre tarefa de educar e a vil busca do lucro são absolutamente incompatíveis. A demonstração do quanto era falaciosa a idéia de que o Chile tinha um sistema educacional modelar, por certo, deverá servir para conter novos ímpetos privatistas em outros países. Educação é dever do Estado, não uma atividade mercantil como qualquer outra.
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