quarta-feira, 22 de abril de 2020

Previsões

A pandemia de coronavírus é um teste de resistência, em diversos níveis, para todas as pessoas. Sem dúvida, é uma situação estressante. Diante de um fato surpreendente, que teve o poder de parar o mundo, logo aparecem os palpiteiros de plantão. Com eles, surgem previsões para todos os gostos, baseadas em puro achismo. Entre as previsões mais irritantes estão as que se propõem a antecipar o mundo pos-pandemia. Como os falsos videntes e enroladores adoram um chavão, logo lançaram expressões como "o novo normal" e "o mundo nunca mais será o mesmo". Místicos de todos os matizes, e pretensiosos os mais variados, apressam-se em fazer afirmações sobre as mudanças que serão "inevitáveis" após a pandemia. Bobagem. Não há fato, por mais desastroso ou devastador, que seja capaz de modificar o ser humano no que lhe é característico. Sempre que submetidas a grandes traumas, as pessoas reagem ao impacto inicial, mas voltam ao seu comportamento habitual assim que sentem que a ameaça se afastou. Ninguém deve se iludir. Se os efeitos do coronavírus se prolongarem por muito tempo, aí mesmo é que, resolvida a questão, virá o "estouro da boiada". O ser humano, para o bem ou o mal, não nasceu para a contenção. Sua natureza é expansiva. O mundo pós-pandemia terá algumas mudanças, mas nada que altere a essência do comportamento humano.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Os 60 anos de um desatino

Brasília, a capital do país, completa, hoje, 60 anos de sua inauguração. Embora seja uma data redonda, nada há para comemorar. Por muitas razões, Brasília é uma demonstração da perversidade das "elites" dirigentes do país. Não há porque celebrar os 60 anos de um desatino, uma construção que custou tanto ao país, financeira e politicamente. A transferência da capital federal para o meio do nada, longe do mar, num clima quente e seco, nada teve dos supostos ideais edificantes alardeados por alguns. Propiciar a ocupação do centro-oeste brasileiro, até então um deserto humano, seria um deles. Antes fosse. O objetivo fundamental da construção de Brasília foi retirar a sede do poder político federal da efervescência de uma cidade cosmopolita como o Rio de Janeiro. Capital do Brasil por quase duzentos anos, era natural que o Rio de Janeiro ostentasse essa condição. Mais linda cidade do mundo, maior pólo cultural do país, nada mais natural que ser a sede dos poderes da República. Porém, os governantes não gostam da vigilância permanente que é exercida sobre eles numa cidade com essas características, e, ainda por cima, populosa. Ao transferir-se a capital federal para o meio do mato, garantia-se a ausência de manifestações contrárias imediatas da população contra medidas governamentais que agredissem os seus interesses. Sim, pois se antes estavam integradas à paisagem urbana de uma metrópole, as sedes dos três poderes foram transferidas para um local ermo e, na época, quase inacessível. Um cenário ideal para tomar decisões impopulares sem ter de controlar manifestações de protesto. A construção de Brasília foi feita a um custo exorbitante, chegando ao ponto de tijolos serem transportados de avião. O presidente Juscelino Kubitschek, o "construtor" de Brasília, até hoje glorificado por muitos, era um lobo em pele de cordeiro, e seus propalados "cinquenta anos em cinco", comprometeram o país financeiramente, e com opções que trouxeram efeitos danosos até os dias atuais, como a preferência pelo transporte rodoviário de mercadorias em detrimento de outros mais práticos e baratos. Com o tempo, Brasília tornou-se uma "ilha da fantasia", fechada em si mesma, de costas para os anseios da população, e custando uma fortuna para o erário, paga com o suor e os impostos dos brasileiros. Sim, Brasília está completando 60 anos, mas não há motivos para festejar a data.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

A nostalgia como solução

Em tempos difíceis, quando o presente é opressivo e o futuro incerto, a recordação de épocas felizes é um recurso irresistível. Com o futebol parado, os canais de tevê a cabo especializados em esportes exibem jogos antigos de clubes e da Seleção Brasileira. A exibição dos seis jogos da Seleção na conquista da Copa do Mundo de 1970, no México, trouxe de volta um encantamento com o futebol que os mais velhos não conseguem mais ter, e os jovens nunca conheceram. Em princípio, ver ou rever jogos realizados há 50 anos pode parecer pouco interessante. Nada mais equivocado. A Seleção de 70 é tão mágica, com sua constelação de craques, que assisti-la é degustar um banquete. Não por acaso, foi escolhida, por uma publicação da Inglaterra, a melhor equipe de futebol de todos os tempos. Olhando atentamente todos os jogos, verifica-se que só três jogadores estiveram num nível abaixo do restante da equipe, Félix, Brito e Piazza. Ainda assim, Félix não foi um goleiro tão comprometedor como disseram alguns. Oscilou entre boas defesas e falhas eventuais. O problema, mesmo, esteve na dupla de zaga. Brito era um zagueiro eficiente, com uma longa e digna carreira por vários grandes clubes brasileiros, mas lhe faltava uma maior qualidade técnica. Piazza era um jogador de alto nível, mas jogou improvisado e não tinha a rotina da posição. O sempre menosprezado Everaldo, no entanto, não faz parte desse grupo. Defensivamente, foi quase perfeito e, mesmo apoiando pouco, quase marcou dois gols, um contra a Romênia, num chute de longa distância, e outro na decisão com a Itália, dentro da área, após receber um lançamento de Pelé. Depois de ver jogos tão fascinantes, fica ainda mais compreensível porque, quando se enfrentam dias amargos, se busca a nostalgia como solução.

domingo, 19 de abril de 2020

Brete

O Brasil vive um momento político angustiante. Está mais do que claro que o presidente Jair Bolsonaro não tem mais condições de ficar no cargo. Aliás, não é de hoje. Desde que a pandemia de coronavírus iniciou, ficou evidente que Bolsonaro era um obstáculo na luta contra a doença. Tresloucado, Bolsonaro continua agindo de forma contrária ao que recomenda a Organização Mundial de Saúde, e quer acabar com o confinamento, alegando preocupação com a economia. Chegou ao ponto de demitir o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que tinha uma popularidade de 76%. No lugar de Mandetta, foi colocado Nelson Teich, que está mais para empresário do ramo da saúde do que um médico, propriamente. O país mergulha no caos, justo num momento de crise sanitária. O Brasil está num brete. Não é mais possível manter um presidente que age na contramão dos interesses do país. A omissão é um erro que homens públicos não podem cometer. Os poderes Legislativo e Judiciário precisam se unir para fazer a deposição de Bolsonaro, seja qual for o meio jurídico que se utilize para tanto.

sábado, 18 de abril de 2020

Apresentações desiguais

O festival One World, transmitido, hoje para o mundo inteiro, em várias plataformas, é uma ideia meritória. Liderada pela cantora Lady Gaga, a iniciativa constou de apresentações de vários nomes de destaque do meio musical, de dentro de suas casas, para homenagear os profissionais de saúde e arrecadar recursos para as pesquisas de medicamentos contra o coronavírus. O importante é o objetivo buscado, evidentemente, mas nem por isso deve-se deixar de analisar a performance dos grandes astros em suas apresentações. Obviamente, uma apresentação em "home office" não favorece um grande desempenho. Ainda assim, alguns se mostraram mais empenhados, enquanto outros pareciam estar apenas cumprindo um dever. No primeiro caso, estão os Rolling Stones, John Legend, Jennifer Lopez e a própria Lady Gaga. No segundo, principalmente, Paul McCartney, com uma displicente interpretação de "Lady Madonna". Elton John foi apenas burocrático ao cantar "I Still Standing". Stevie Wonder, deveria ter escolhido uma música mais significativa de seu brilhante repertório. A iniciativa de realização do "One World", só merece elogios. No entanto, como espetáculo artístico, teve apresentações desiguais.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Colapso

O confinamento das pessoas em suas casas, durante a pandemia de coronavírus, tem o propósito de evitar que o sistema hospitalar entre em crise, caso a disseminação de casos da doença se torne incontrolável. Porém, antes mesmo que a quarentena seja flexibilizada, como deseja o presidente Jair Bolsonaro, essa situação de colapso já está sendo atingida. No Ceará, todos os leitos de UTI estão ocupados por pacientes com coronavírus. Nas quatro principais emergências do Rio de Janeiro, a situação é a mesma. Como a curva de infectados ainda está subindo, o que deverá ocorrer até junho, momentos difíceis ainda serão enfrentados pela população. A flexibilização da quarentena, que vem sendo defendida pelo presidente Jair Bolsonaro, caso venha a acontecer, só irá agravar o quadro. Por enquanto, não há melhor alternativa, no Brasil ou no exterior, do que o confinamento. Só assim se poderá evitar uma explosão no número de infectados e de mortes.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Saída confirmada

A entrevista do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, na tarde de ontem, deixou claro que ele estava deixando o cargo. Confrontando abertamente suas posições com as do presidente Jair Bolsonaro no que tange à pandemia de coronavírus, Mandetta mostrou a típica atitude de quem não se sentia mais obrigado a manter as aparências. Sabedor de que não permaneceria como ministro, "jogou a farofa no ventilador", ainda que numa linguagem elegante. Hoje, com sua saída confirmada, Mandetta concedeu mais uma entrevista, despedindo-se do cargo. Como fizera no dia anterior, reafirmou seu compromisso com a ciência e sua disposição de favorecer uma transição o mais tranquila possível. Para os brasileiros, a queda de Mandetta é uma má notícia. Sua condução em relação à pandemia se mostrou correta, ao defender o confinamento como forma de evitar o colapso do sistema de saúde. Preocupado com os lucros dos empresários, Bolsonaro quer flexibilizar a quarentena, sob a alegação de que está pensando nos mais pobres. O futuro ministro da Saúde, Nelson Teich, é, também, um empresário do ramo. Os brasileiros podem se preparar para dias difíceis, em que suas vidas serão postas em risco, em nome de interesses econômicos.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Encantamento

A reprise dos jogos da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1970, que está sendo levada ao ar pelo SporTV durante o período de paralisação do futebol em função da pandemia de coronavírus, é uma excelente opção para as diversas gerações. Os mais velhos podem recordar as maravilhosas atuações daquela equipe recheada de craques como Carlos Alberto, Gérson, Jairzinho, Tostão e Rivelino, cujo nome maior era o gênio Pelé, melhor jogador de futebol de todos os tempos. Aqueles que eram muito pequenos na época, e os que sequer haviam nascido, terão a chance de se extasiar com um futebol em que a qualidade era o fator preponderante. Claro, jogadas erradas e falhas também ocorriam naqueles tempos. Porém, a exuberância técnica dos jogadores acima citados não é mais vista nos dias de hoje. O primeiro jogo, exibido ontem, a goleada, de virada, por 4 x 1 sobre a Tchecoslováquia, contou com atuações primorosas de Pelé, Gérson e Rivelino. No jogo de hoje, contra a Inglaterra, o único em que a Seleção só marcou um gol e não sofreu nenhum, os destaques são a maior defesa da história do futebol, de Banks numa cabeçada de Pelé, e a jogada primorosa de Tostão que seria seguida por um toque do Rei do Futebol para Jairzinho marcar o gol da vitória. São momentos de puro encantamento que poderão ser desfrutados em mais quatro jogos, até domingo. Um compromisso imperdível para quem ama o futebol.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Empurrando com a barriga

Depois de terem concedido vinte dias de férias aos jogadores, a contar de primeiro de abril, os clubes brasileiros deverão estender a medida até o mês de maio. A pandemia de coronavírus desorganizou os calendários esportivos no mundo inteiro e, no caso do futebol brasileiro, está fazendo com que os clubes estejam empurrando com a barriga a solução do problema, que ainda não se consegue vislumbrar. A verdade é que, com o transcorrer do tempo, mais complicada fica a hipótese de encontrar uma saída para salvar o ano no futebol brasileiro. Fórmulas mirabolantes, soluções exóticas, tudo é aventado para que se possa voltar a ter futebol no Brasil em 2020. Os clubes e seus patrocinadores, a televisão e os seus anunciantes, estão ansiosos pela volta dos jogos, ainda que sejam de portões fechados. Na sociedade do espetáculo, subproduto do capitalismo, o show não pode parar, pois os prejuízos financeiros são elevadíssimos. O problema é que enquanto a pandemia não arrefecer, a volta do futebol, em qualquer condição, seria uma temeridade. Esse arrefecimento, no entanto, ainda parece uma possibilidade muito distante. Por enquanto, postergar uma decisão definitiva para a questão é a única alternativa.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Moraes Moreira

A morte de Moraes Moreira, hoje pela manhã, aos 72 anos, representa um duro golpe na música brasileira. Moraes Moreira surgiu no cenário musical junto com seus companheiros do grupo "Os Novos Baianos", que, no início dos anos 70, causou enorme impacto junto ao público e crítica. Em meados dos anos 70, partiu para a carreira solo. Fez muito sucesso com suas composições, seja na sua própria voz ou na de outros artistas. "Festa do Interior", por exemplo, composta por ele em parceria com Abel Silva, foi um dos maiores sucessos da carreira de Gal Costa. Versátil, Moraes Moreira transitava por diversos ritmos e absorvia várias influências. O Carnaval, no entanto, foi um ponto marcante de sua carreira, e ele foi o primeiro a cantar no alto de um trio elétrico. A brasilidade, ainda que, eventualmente, misturada com ritmos de outras culturas, e o balanço contagiante, são marcas do seu trabalho. Moraes Moreira se foi, mas criou uma vasta e inesquecível obra, que será lembrada pelas gerações futuras. Os grandes artistas se tornam perenes pelo legado que deixam. Esse, certamente, é o caso de Moraes Moreira.