segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Entusiasmo arrefecido

Desde que o argentino Jorge Bergoglio foi escolhido como o novo papa, que adotou por nome Francisco, a revista "Veja" brindou-lhe com toda a sorte de elogios e referências positivas. Francisco foi apontado pela revista como o homem que viera para salvar a Igreja, dar-lhe uma nova face, limpá-la da presença de pedófilos e homossexuais entre seus membros, conter a perda de fiéis para outras religiões, entre muitas outras tarefas. Sua bondade, carisma, simpatia e acessibilidade eram saudadas pela publicação. Porém, ao divulgar o primeiro documento de relevo de seu papado, a exortação apostólica "Evangelii Gaudium" (A alegria do Evangelho), Francisco sofreu as primeiras críticas da revista que tanto o exaltava, indicando que o entusiasmo da publicação pela sua figura pode estar arrefecendo. Tudo porque, numa análise percuciente e praticamente irrebatível, Francisco condenou o livre mercado e criticou o capitalismo. Num trecho particularmente inspirado, Francisco escreveu o seguinte: "Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum". Essas verdades, incontestáveis à luz da razão, não foram, é claro, assimiladas por "Veja". A revista argumentou que o "legítimo" direito de acumular riqueza nasceu das próprias costelas trincadas da Igreja pela Reforma Protestante, no século XVI, que segundo o filósofo alemão Max Weber, tirou dos cristãos os dilemas éticos e morais que os impediam de obter lucro. "Veja" considerou, também, que se o papa olhasse com atenção o governo "antidemocrático" da Argentina da presidente Cristina Kirchner, perceberia que a solução é menos, e não mais, Estado. Por fim, a publicação afirma que ao transformar uma solução, o livre mercado, em problema, Francisco pode estar se encaminhando para pregar no deserto. Nada mais falso. Francisco acertou na "mosca". Suas palavras vão ao encontro do que sentem na carne os desvalidos e do que tem consciência as mentes mais lúcidas e esclarecidas. Ter sofrido críticas de uma publicação tão repugnantemente conservadora e neoliberal como "Veja" é um sinal inequívoco do acerto do que escreveu.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Melhor do que a encomenda

O Grêmio ganhou do Goiás por 1 x 0, hoje, na Arena, pelo Campeonato Brasileiro. Foi uma vitória como tantas outras do Grêmio no Brasileirão, sem jogar bem, marcando apenas um gol, abusando dos chutões, concedendo posse de bola ao adversário, sofrendo até o apito final. Porém, a rodada não poderia ter sido melhor para o Grêmio, pois, afora vencer um concorrente direto pela classificação da Libertadores, viu outros dois clubes com o mesmo objetivo, Atlético Paranaense e Botafogo, serem derrotados. Com isso, o Grêmio voltou a ser o vice-líder da competição, posição que só perderá se, na última rodada, for derrotado pela Portuguesa e o Atlético Paranaense vencer o Vasco. Portanto, o Grêmio está com o vice-campeonato encaminhado, o que lhe dará a classificação direta para a Libertadores. Os resultados de hoje, no entanto, já garantiram o Grêmio, pelo menos na pré-Libertadores, pois não há mais hipótese de o clube terminar o campeonato abaixo do terceiro lugar. Foi uma rodada melhor do que a encomenda para o Grêmio, que fez a sua parte e foi ajudado pelos resultados paralelos. Agora, resta confirmar o vice-campeonato, na última rodada e, depois, tratar de montar um time que possa dar a perspectiva concreta de ganhar a Libertadores novamente.

sábado, 30 de novembro de 2013

Pelada

O Inter empatou com o Corinthians em 0 x 0, hoje, no Pacaembu, pelo Campeonato Brasileiro. Poucas vezes o resultado de um jogo foi tão previsível. O Corinthians tem enorme dificuldades para marcar gols, e está totalmente desmotivado, por não aspirar mais nada no Brasileirão. Nem mesmo a despedida do técnico Tite em jogos do Corinthians como mandante, que levou 35 mil pessoas ao estádio, foi capaz de tornar o time menos letárgico. Para o Inter, o empate interessava, pois era o ponto que faltava para afastar de vez a hipótese, que já era remota, de rebaixamento. A consequência foi uma partida fraquíssima, uma autêntica pelada, em que os dois times poderiam ficar jogando durante dias que, ainda assim, não marcariam gols. Nem mesmo o fato de ter ficado com um jogador a mais em campo desde os oito minutos do segundo tempo, quando Williams foi expulso, fez o Corinthians crescer em campo. O futebol praticado pelos dois times foi horroroso, incompatível com a tradição dos dois clubes, mas que espelha fielmente o que foram as suas campanhas na competição.. Em resumo, um jogo para ser esquecido.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

A seleção do campeonato

A CBF divulgou, hoje, a seleção dos melhores do Campeonato Brasileiro de 2013. Os escolhidos foram Fábio (Cruzeiro), Marcos Rocha (Atlético Mineiro), Dedé (Cruzeiro), Manoel (Atlético Paranaense) e Alex Telles (Grêmio); Nílton (Cruzeiro), Elias (Flamengo), Éverton Ribeiro (Cruzeiro) e Paulo Baier (Atlético Paranaense); Wálter (Goiás) e Éderson (Atlético Paranaense). O craque do campeonato foi Éverton Ribeiro. O jogador revelação foi Marcelo (Atlético Paranaense). O melhor técnico, Marcelo Oliveira (Cruzeiro). A seleção escolhida deixa claro o baixo nível técnico do campeonato e do futebol brasileiro. Com exceção de Fábio, que inexplicavelmente nunca é convocado, Marcos Rocha, que já foi lembrado algumas vezes, e de Dedé, que segue nos planos de Felipão, os demais jogadores não são de nível de Seleção Brasileira. Manoel vem destacando-se há algum tempo pelo Atlético Paranaense, mas não se tem certeza sobre o que poderia fazer num grande clube, Alex Telles ainda é, apenas, uma promessa. Nílton, Elias e Evérton Ribeiro brilharam, mas não são foras de série. Paulo Baier, que só teve grande rendimento em clubes médios, já tem 39 anos. Wálter, de grande talento, vive uma eterna briga com a balança. Éderson foi o goleador do Brasileirão, mas é um jogador tecnicamente modesto. A revelação do campeonato, Marcelo, é outro que ainda terá de confirmar se é ou não um grande jogador. O futebol brasileiro, infelizmente, está nivelado por baixo. Há muita paridade entre os times, mas pela ausência de grandes valores, e não pela sua presença em número significativo, como seria desejável. O equilíbrio entre os disputantes até proporciona emoção, como no caso da luta pela classificação para a Libertadores, ainda não totalmente definida, mas tecnicamente os jogos são pobres. Os grandes clubes brasileiros gastam muito dinheiro para formar seus times, mas o que se vê em campo não justifica esse dispêndio. Resta torcer para que a inesgotável fábrica de talentos do futebol brasileiro possa nos brindar, brevemente, com novos craques capazes de alterar esse quadro.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Nílton Santos

O Brasil perdeu, hoje, um dos seus maiores jogadores de futebol de todos os tempos: Nílton Santos. Escolhido pela Fifa, no final do século passado, como o melhor lateral esquerdo da história do futebol mundial, Nílton Santos foi convocado pela Seleção Brasileira para as Copas do Mundo de 1950, 1954, 1958 e 1962, sendo campeão nas duas últimas. Em 16 anos de carreira, só vestiu duas camisas, a do Botafogo e a da Seleção Brasileira. Na Copa do Mundo de 1962, foi titular e campeão com 37 anos de idade. Nílton Santos não enriqueceu com o futebol. Após parar de jogar, teve algumas experiências como técnico, sem maior repercussão. Nessa atividade, aliás, por um breve período, treinou o São Paulo, de Rio Grande (RS). Craque dentro de campo, Nílton Santos foi também um grande ser humano. Há alguns anos, sofria do Mal de Alzheimer. Faleceu aos 88 anos, de infecção pulmonar. Mais um campeão do mundo que se vai, e que deixa uma imensa saudade.

Resultados lógicos

Os jogos de hoje Flamengo x Atlético Paranaense e Ponte Preta x São Paulo confirmaram a expectativa encaminhada pelas primeiras partidas. Com o empate em 1 x 1, no Durival Brito, o Flamengo levou uma grande vantagem para o Maracanã. Um simples empate me 0 x 0 daria o título da Copa do Brasil para o Flamengo. Esse foi o resultado que persistiu durante quase todo o jogo, mas com um gol no final da partida, e outro nos acréscimos, o Flamengo ganhou por 2 x 0 e não deixou dúvidas sobre a legitimidade da sua conquista. Esse é o terceiro título da Copa do Brasil ganho pelo Flamengo em cinco decisões que disputou da competição. Para o Atlético Paranaense pesou o fato de não ter vencido o jogo que disputou como mandante, e a postura na partida de hoje, quando precisava marcar gols mas mostrou pouca ousadia. No outro jogo da noite, a Ponte Preta empatou em 1 x 1 com o São Paulo, pelas semifinais da Copa Sul-Americana. Como havia vencido no Morumbi, por 3 x 1, a Ponte Preta estava com a classificação quase garantida, e apenas confirmou essa tendência no estádio Romildão, em Mogi-Mirim (SP). Sem jamais ter ganho um título em sua história, a Ponte Preta conseguiu a façanha de classificar-se para a decisão de sua primeira competição internacional. A Ponte Preta, no entanto, terá a torcida contra dos clubes que buscam classificação para a Libertadores pelo Campeonato Brasileiro. Afinal, se a Ponte Preta ganhar a Copa Sul-Americana, o Brasileirão classificará apenas três clubes para a Libertadores. Se ela for derrotada, serão quatros os clubes classificados.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Renovação inusitada

A renovação de contrato do técnico Gílson Kleina com o Palmeiras é mais uma demonstração de que o futebol brasileiro se encaminha, aos poucos, para adotar posturas mais racionais e menos irresponsáveis quanto aos gastos praticados pelos clubes, o que se insere dentro da ideia de mudanças estruturais proposta pelo movimento Bom Senso F.C. Kleina aceitou reduzir seu salário de R$ 300 mil para R$ 200 mil. O contrato prevê, no entanto, um sistema de bonificação que poderá fazer com que essa quantia possa até dobrar. No caso de uma eventual demissão, Kleina receberá o equivalente a dois meses de salário, exceto se, nesse período acertar-se com outro clube. Como se vê, é um avanço em relação aos contratos que vem sendo praticados pelos grandes clubes nos últimos anos. Em geral, os maiores clubes brasileiros pagam salários exorbitantes para seus técnicos, com cláusulas rescisórias milionárias. Dessa forma, se o técnico é demitido muito antes do término do contrato, o clube segue passando seu salário, que se soma ao do novo treinador, gerando uma espiral de gastos. Isso, somado aos gastos igualmente altos com o grupo de jogadores, faz com que os grandes clubes tenham enormes dívidas, apesar de não arrecadarem pouco. Ao contrário do que muitas vezes dão a entender, os maiores clubes brasileiros ganham muito dinheiro. A televisão, com o que paga pelos direitos de transmissão das competições, por exemplo, é uma grande fonte de recursos. A permanente crise financeira dos clubes não se dá pela falta de recursos, mas pela má administração dos mesmos. O novo contrato entre o Palmeiras e Gílson Kleina é um indicativo do que pode ser uma nova tendência no futebol brasileiro, com salários menores, mas com metas de produtividade que poderão gerar ganhos adicionais. Tomara que isso se confirme, e que o futebol brasileiro tenha, daqui por diante, uma administração mais responsável, preservando as finanças dos clubes, quase sempre combalidas.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Polêmica oportunista

A fala do jogador Júlio Baptista, do Cruzeiro, dirigida a Cris, do Vasco, que foi captada pelas câmeras de transmissão da partida, no sábado, geraram uma enorme polêmica no futebol brasileiro. A leitura labial do que disse Júlio Baptista foi "Faz logo outro gol...", o que, para alguns permanentes paranóicos significa a evidência de que o Cruzeiro entregou o jogo para o Vasco. A explicação de Júlio Baptista, que admitiu ter mesmo dito a frase, foi de que era uma resposta a um pedido de Cris para que o Cruzeiro "aliviasse" o jogo, já que nada mais aspira no Campeonato Brasileiro, por ter ganho o título antecipadamente, enquanto o Vasco sofre grande risco de rebaixamento. A argumentação do jogador do Cruzeiro me parece absolutamente coerente e expressa o que deve, verdadeiramente ter acontecido. Por absoluta leviandade ou por sensacionalismo, vários profissionais dos meios de comunicação difundiram a ideia de que o Brasileirão estava manchado por um jogo "amolecido". Um dos que sustentam essa impressão é o ex-jogador, e atualmente comentarista, Roger Flores, cuja conduta, ao tempo em que desfilava pelos gramados, em nada o autoriza a manter uma postura de paladino da ética. Aqui no Rio Grande do Sul, defensores apaixonados das competições com formulismos e "mata-mata", aproveitaram para dizer que o problema está na fórmula de pontos corridos, por favorecer a ocorrência de resultados arranjados. O que esses eternos farejadores de golpes não explicam é porque, nessa mesma fórmula, clubes como o próprio Vasco e o Corinthians já foram rebaixados. O que se está vendo no momento é a eclosão de uma polêmica oportunista e carregada de leviandade. Inimigos dos pontos corridos e clubes que disputam com o Vasco a fuga da zona de rebaixamento estão se aproveitando do episódio para favorecer seus interesses. A explicação de Júlio Baptista é plenamente convincente. Pensar o contrário é procurar pelo em ovo.

domingo, 24 de novembro de 2013

Decepcionante

O Inter empatou em 0 x 0 com o Coritiba, hoje, no Francisco Stédile, pelo Campeonato Brasileiro. Mesmo com  toda a tentativa de mobilização feita pela diretoria do clube, barateando o preço dos ingressos, convocando a ajuda do torcedor, e com a volta de jogadores importantes como Juan e Leandro Damião, o Inter voltou a ter uma atuação decepcionante e só não deverá terminar o Brasileirão na condição de rebaixado porque o entredevoramento dos outros clubes que estão na parte de baixo da tabela tende a favorecê-lo. A reclamação de Williams, após a partida, de que o técnico do Inter, Clemer, tem jogadores no banco e não faz modificações, deixa evidente de que as causas dos insucessos em campo continuam as mesmas, independente de quem esteja no cargo. O presidente do Inter, Giovanni Luigi, está há três anos no posto. Nesse período, o clube se caracterizou pela alta rotatividade de técnicos, e por um vestiário indomável. Fala-se que Abel será o próximo técnico do Inter. Por ter conquistado o maior título da história do Inter, o de campeão mundial, Abel chegará, caso sua contratação se confirme, com enorme força e cartaz. Resta saber se isso será suficiente para controlar o vestiário.

Frustrante

O Grêmio empatou em 1 x 1 com a Ponte Preta, hoje à tarde, no Moisés Lucarelli, pelo Campeonato Brasileiro. O resultado, combinado com a goleada do Atlético Paranaense sobre o Náutico por 6 x 1, fez o Grêmio cair para o terceiro lugar na tabela de classificação. Mais uma vez, o torcedor do Grêmio se viu tomado pela frustração. Dessa vez, o Grêmio teve até mais volume de jogo, criou chances em bom número, mas, como sempre, teve enorme dificuldade para marcar gols. O técnico do Grêmio, Renato, escalou o time com três atacantes, aproveitando a volta de Vargas, que estava jogando pelo Chile. Foi de Vargas, inclusive, o único gol do Grêmio. Porém, os outros dois homens de frente, Kléber e Barcos, repetiram pela enésima vez o mau futebol e a ausência de gols. Nem mesmo o fato de ter jogado fora de casa serve como atenuante para o Grêmio. A Ponte Preta já entrou em campo virtualmente rebaixada, poupou alguns titulares, e o estádio não recebeu um grande público. Sabedor de que não poderia deixar Máxi Rodriguez fora do jogo, e de que tinha que retirar um dos outros três estrangeiros do grupo para incluí-lo entre os relacionados para a partida, Renato sacrificou Riveros. Tudo para não tirar Barcos, escolha óbvia da maioria da torcida e da imprensa. Barcos, embora tenha se esforçado, teve uma atuação calamitosa, abaixo da crítica, errou praticamente todas as jogadas. Kléber, um atacante que não marca gols desde setembro, foi, novamente, uma nulidade, e ainda ficou irritado ao ser substituído! Máxi Rodriguez entrou no segundo tempo e, talvez sentindo o peso de ser visto como um salvador da pátria, não chegou a brilhar. A sorte do Grêmio é que, nessa rodada, o Goiás perdeu e o Botafogo apenas empatou. No entanto, se antes o Grêmio dependia apenas de si para manter-se em segundo lugar no Brasileirão, posição que dá classificação direta para a Libertadores, agora não é mais assim. Como tem o mesmo número de pontos e de vitórias que o Atlético Paranaense, mas saldo de gols muito inferior, terá de torcer para que ele tropece. Poucas vezes um jogo esteve tão fácil de ser vencido como o de hoje, mas o Grêmio, esbarrando nas mesmas limitações de outros tantos jogos, obteve mais um empate frustrante.