sábado, 18 de maio de 2013

Um exemplo a ser seguido

A morte do general e ex-ditador da Argentina Jorge Rafael Videla, que cumpria pena de prisão perpétua num presídio no subúrbio de Buenos Aires, é mais uma evidência do descalabro que caracteriza a forma como o Brasil trata os artífices do espúrio golpe militar que impôs ao país uma ditadura que se prolongou por 21 anos. Enquanto seus vizinhos, Argentina e Uruguai, que também experimentaram o amargor de regimes ditatoriais, puniram os golpistas por seus crimes, que incluíam torturas e assassinatos, no Brasil os monstros do regime fardado estão livres e soltos, sustentando sua tese de que agiram corretamente e de que salvaram o país da ameaça comunista. Há poucos dias, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, uma das figuras mais execráveis do golpe militar brasileiro, responsável por torturas e mortes nos porões do Doi-Codi, em depoimento à Comissão da Verdade, negou que tais fatos tenham ocorrido e envolveu-se num bate-boca com um médico e vereador de São Paulo, recusando uma acareação com ele, a quem caracterizou de terrorista. O detalhe é que, conforme o vereador, Ustra o torturou na época da ditadura. Enquanto coisas como essas acontecem por aqui, na Argentina, Videla, cujo período no poder foi o mais sangrento da ditadura naquele país, terminou seus dias na prisão, como deveria ser. O Brasil precisa seguir em frente, é claro, mas isso não se faz varrendo o lixo para debaixo do tapete. Pelo contrário. O Brasil precisa passar o limpo o período da ditadura, não por vingança, mas por justiça. O argumento de que a anistia de 1979 serve pára os dois lados é pífio e cínico. A anistia foi um artifício dos ditadores para evitar punições futuras, pois sabiam que o regime vivia seus estertores. Os verdadeiros democratas não reconhecem a legitimidade dessa anistia. Se é verdade que ela permitiu a volta dos exilados, isso, em si, não é nenhum mérito, pois foi o retorno de quem nunca deveria ter saído. Em nome de tantos brasileiros que tombaram na luta contra a ditadura, não basta fazer um levantamento dos assassinatos cometidos, localizar corpos e indenizar a família das vítimas, é preciso mais. Os perpetradores e executores da ditadura que ainda se encontram vivos não podem mais continuar soltos, escarnecendo, com sua infecta presença, da dor dos familiares das vítimas e dos brasileiros de caráter. Seu lugar é na prisão. Os bons exemplos devem ser seguidos. Façamos como a Argentina e o Uruguai, e punamos os militares golpistas. Enquanto isso não for feito, a ditadura permanecerá como um fantasma a perturbar os brasileiros.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Não podia ser diferente

O Grêmio perdeu por 1 x 0 para o Independiente Santa Fe, no estádio El Campin, em Bogotá (COL), em jogo que terminou na madrugada de hoje, pelo horário brasileiro, e está eliminado da Libertadores. Nada mais previsível. Só mesmo a paixão mais extremada poderia fazer com que um torcedor esperasse melhor sorte para o Grêmio na competição. O Grêmio, em 2013, jogou apenas duas boas partidas, contra o Fluminense, no Engenhão, e o Caracas, na Arena, goleando seus adversários em ambas. Antes e depois desses jogos, suas atuações foram pífias. Alguém poderá lembrar de uma outra goleada, sobre o São José, no primeiro turno do Campeonato Gaúcho, mas isso é o que se espera de um clube grande diante de um pequeno. Em 2013, o Grêmio tem sido um amontoado de problemas e erros fora do campo, e um desfile de fracassos dentro do gramado. Mesmo para o os mais distraídos, era perceptível que o tão falado "projeto" de trabalho estava fadado ao insucesso. A cada novo desempenho insatisfatório, o técnico Vanderlei Luxemburgo, em suas entrevistas após os jogos, apresentava uma cascata de desculpas esfarrapadas, sempre no intuito de esconder as falhas de seu trabalho e reafirmar sua confiança de que "o Grêmio está no rumo certo". Seus argumentos eram risíveis, para dizer o mínimo, e não convenciam nem uma criança. Desde que chegou ao clube, há um ano e três meses, Luxemburgo perdeu tudo o que disputou. Até mesmo a sua melhor campanha, a do Campeonato Brasileiro de 2012, tem de ser relativizada. O Grêmio acabou em terceiro lugar, mas chegou na última rodada com a chance de obter o vice-campeonato, o que lhe daria a classificação direta para a Libertadores. Não conseguiu e teve de disputar a pré-Libertadores, o que comprometeu a sua preparação para o ano que se avizinhava. Por mais que se reconheça o currículo vitorioso de Luxemburgo, seu trabalho, no Grêmio, não deu certo, e  não há nada que indique que ele possa reverter a situação. Nem mesmo o alto custo de sua rescisão de contrato, para um clube que vive dificuldades financeiras, pode servir de justificativa para que se prorrogue a sua permanência no cargo. Há momentos na vida de um clube em que se impõe a necessidade de criar-se um fato novo. Para o bem do Grêmio, o ciclo de Vanderlei Luxemburgo tem de ser encerrado. Só assim o clube poderá ter chances de corresponder às expectativas de seus torcedores ainda durante este ano.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Vitória inconvincente

O Inter ganhou por 2 x 0 do Santa Cruz, hoje à noite, no Francisco Stédile, e se classificou para a terceira fase da Copa do Brasil. O futebol que o time jogou, no entanto, dá motivo para muitas preocupações. Mais uma vez, a exemplo do que vinha acontecendo nos jogos do Campeonato Gaúcho, e, também, na primeira partida contra o Santa Cruz, o Inter não esteve bem. O primeiro tempo terminou em 0 x 0, com o time pernambucano mostrando-se mais insinuante que o Inter, que ficou com um homem a menos, devido a expulsão de Fabrício. O jogo seguia, mais ou menos, o mesmo diapasão no segundo tempo, quando D'Alessandro fez um belo gol, aliviando o sofrimento do Inter e encaminhando a classificação. Novamente, a capacidade técnica de D"Alessandro fez a diferença, e é preciso lembrar que ele só entrou em campo por que sua pena original de dois jogos de suspensão foi diminuída pelo STJD. No Santa Cruz, a ausência de seu principal destaque, Dênis Marques, que está lesionado, lhe retirou muito poder ofensivo. O Inter venceu, como se esperava, mas terá de melhorar muito para alcançar objetivos maiores. As razões para preocupação são muitos. Fred não repete suas boas atuações de 2012, Diego Forlán, depois de um bom início de 2013, volta a viver uma má fase. Rafael Moura continua sem dizer a que veio. Por outro lado, Caio sempre que entra, corresponde, mas o técnico Dunga insiste em mantê-lo na reserva. Ainda que com dificuldades, o Inter eliminou o Santa Cruz. O mesmo deverá ocorrer com América Mineiro ou Avaí, pois um dos dois será o seu próximo adversário na competição. Porém, a partir do momento em que os clubes egressos da Libertadores entrarem na Copa do Brasil, as chances do Inter tendem a ser muito diminutas. Se não se reforçar, o Inter não terá êxito em nenhuma das competições que ainda disputará ao longo do ano.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Mais acertos do que erros

A convocação da Seleção Brasileira para a Copa das Confederações, divulgada, hoje, pelo técnico Luiz Felipe Scolari, o Felipão, foi bastante criteriosa, tendo mais acertos do que erros. Não ocorreu nenhum esquecimento gravíssimo, embora alguns nomes merecessem ser lembrados. Analisando cada posição, verificaremos que Felipão acertou na maior parte das escolhas. Os três goleiros convocados, Júlio César, Diego Cavalieri e Jefférson, são, mesmo, os melhores da posição. Júlio César é qualificado e experiente, e vive, novamente, uma boa fase, não tendo responsabilidade direta pelo rebaixamento de seu clube, o Queen's Park Rangers, no Campeonato Inglês. Diego Cavalieri é, desde 2012, o melhor goleiro em atividade no Brasil, e Jefférson, já convocado outras vezes, exibe grande regularidade há muitos anos. Nomes como Cássio, do Corinthians, e Rafael, do Santos, também tem se destacado muito, mas são jovens e podem esperar a vez. Na lateral-direita está o calcanhar de aquiles da Seleção. Daniel Alves já não é tão jovem, tem 30 anos, e nunca foi uma unanimidade, mas não há outra opção melhor. Para a sua reserva, no entanto, Felipão poderia ter convocado outro jogador que não fosse Jean. Trata-se de uma improvisação, pois o jogador é volante de origem. Afora isso, Jean é um jogador apenas mediano, não tem o padrão técnico de uma Seleção Brasileira. Jamais simpatizei com improvisações, sequer em clubes, quanto mais na Seleção. Melhor seria se Felipão tivesse convocado Marcos Rocha, do Atlético Mineiro, que não é brilhante mas é da posição e vive boa fase. Entre os zagueiros convocados, nenhuma injustiça. David Luiz e Thiago Silva são nomes certos em qualquer convocação, Réver vive uma grande fase, e Dante, embora já tenha 29 anos e, até pouco tempo, fosse desconhecido pela maioria dos brasileiros, é titular do Bayern de Munique, onde vem tendo grandes atuações. Na lateral esquerda, Marcelo é um nome indiscutível, e Felipe Luís, convocado para a sua reserva, também é muito bom jogador. No meio de campo, houve o esquecimento mais grave, o de Ramires. A razão, ao que se diz, teria sido por uma conduta considerada inadequada do jogador, mas tendo em vista sua qualidade, esse problema tinha de ser contornado. Foi no meio de campo, também, que ocorreu o maior número de equívocos de Felipão. Afora a não convocação de Ramires, Felipão errou ao chamar Luiz Gustavo, um jogador comum, Jádson, um bom jogador de clube, mas insuficiente para a Seleção Brasileira, e deixar de fora Kaká, de muito boas atuações no final do período de Mano Menezes como técnico da equipe, quando teve grande entendimento com Oscar. As convocações do próprio Oscar, de Fernando, Paulinho, Hernanes e Bernard, não merecem reparos. Em compensação, nesse setor, esteve o maior acerto de Felipão, ao não chamar Ronaldinho, que há muito tempo deveria ter se tornado uma página virada na Seleção. No ataque, as convocações de Fred e Neymar eram óbvias e obrigatórias, e a de Leandro Damião mais do que justa, pelo seu desempenho e pela inconfiabilidade de Alexandre Pato, quase sempre atrapalhado por lesões. Nesse setor, o único erro foi a convocação de Hulk, um equívoco da época de Mano Menezes que Felipão insiste em perpetuar. De um modo geral, no entanto, foi uma boa convocação, que espelha o atual momento do futebol brasileiro. Uma Seleção que está longe de ser espetacular, mas que pode se constituir numa boa equipe, desde que Felipão consiga reeditar seus melhores momentos como técnico. Resta saber se ele ainda é capaz disso.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Privilégio

Antes relegada a um segundo plano no roteiro de shows dos grandes nomes da música, Porto Alegre, nos últimos anos, entrou para o mapa dos astros internacionais que vem se apresentar no Brasil. A lista dos ícones musicais que estiveram na capital do Rio Grande do Sul inclui, por exemplo, Paul McCartney, Ringo Starr, Eric Clapton, Bob Dylan, Elton John e Madonna. No próximo dia 22, Porto Alegre receberá o show de um outro grande mito da música: Charles Aznavour. O célebre cantor e compositor francês, intérprete de clássicos como "La Bohéme" e " Que C'Est Triste Venice", estará se apresentando no dia em que completará 89 anos. Sim, a exemplo do que ocorreu em 19 de abril último, quando o maior astro da música brasileira, Roberto Carlos, realizou um show no dia em que fazia 72 anos, Aznavour concederá esse privilégio para a cidade. Aznavour, que aos 80 anos realizou shows no Brasil como parte do que deveria ser uma turnê de despedida, felizmente mudou de ideia e continuou na estrada. Sua aparência em nada indica se tratar de um homem de quase 90 anos. Parece ter 20 anos menos. Será, sem dúvida, uma oportunidade imperdível de testemunhar a apresentação de um dos maiores nomes da música mundial em todos os tempos. Charles Aznavour pertence à estirpe dos grandes cantores, como Frank Sinatra e Tony Bennet. Sua expressão internacional, entre os nomes da música francesa, só encontra paralelo em Edith Piaff. Preparemo-nos para reverenciá-lo, e para saudá-lo no seu aniversário.

domingo, 12 de maio de 2013

O retorno ao devido lugar

O futebol da zona sul do Estado é indissociável da história desse esporte no Rio Grande do Sul. Ali está o clube de futebol mais antigo do Brasil, o Sport Club Rio Grande, de Rio Grande, cuja data de fundação foi oficializada como o Dia Nacional do Futebol. A exemplo do próprio Rio Grande, os outros dois clubes do município, São Paulo e Riograndense, já foram campeões gaúchos. O mesmo aconteceu com os três clubes de Pelotas, Brasil, Pelotas e Farroupilha. Mesmo com um passado tão rico, o futebol da zona sul foi sendo vencido pela crise econômica que se abateu sobre a região nas últimas décadas. Hoje, dos seis clubes citados, só o Pelotas pertence á primeira divisão estadual. Por isso mesmo, uma decisão que será jogada nessa semana se reveste da maior importância. Trata-se da disputa do título do primeiro turno da Segunda Divisão do Rio Grande do Sul. Em dois jogos, na quinta-feira e no domingo, São Paulo, de Rio Grande, e Brasil, de Pelotas, decidirão quem será o campeão do primeiro turno da competição. O detalhe mais significativo é que, quem vencer a disputa já estará, automaticamente, promovido à Primeira Divisão. Como sou natural de Rio Grande, não poderia ficar indiferente diante desse fato. São Paulo e Brasil são os clubes mais populares dos seus municípios, e há anos estão afastados da principal divisão do futebol gaúcho. Enquanto isso, a Primeira Divisão tem recebido clubes sem apelo popular e de retrospecto histórico pouco significativo. Isso torna a decisão dessa semana um acontecimento relevante para o futebol do Rio Grande do Sul. Um dos dois clubes, daqui a uma semana, já estará de volta á elite do futebol estadual. Será, qualquer que seja o vencedor, o retorno de um clube ao lugar que lhe é devido. São Paulo e Brasil possuem torcidas numerosas e apaixonadas e uma história de feitos e conquistas. Merecem voltar à Primeira Divisão. Na condição de riograndino, embora minha identificação seja com o Rio Grande, torcerei pelo São Paulo. Seu retorno à Primeira Divisão seria mais uma excelente notícia para uma cidade que, depois de décadas de marasmo econômico, cresce num ritmo galopante, estimulada pelos investimentos na área da construção naval. Nessa hora, fala mais alto o amor pela minha terra, e abandono qualquer ideia de isenção para me transformar num inflamado torcedor. Força, São Paulo!

sábado, 11 de maio de 2013

Ativismo gaúcho

Os protestos, passeatas e manifestações públicas de diversos conteúdos são um sinal de saúde política de um país. Nada pior que uma população inteiramente passiva, que a nada reage, aceitando qualquer tipo de imposição. No Rio Grande do Sul, todavia, o ativismo está se tornando um hábito, num permanente estado de contrariedade com quase tudo. Ainda está na memória coletiva a ocasião em que o boneco do mascote da Copa do Mundo de 2014, o tatu-bola, foi destruído por uma turba enfurecida no centro de Porto Alegre. Uma ação estúpida e injustificada, motivada, supostamente, por um repúdio à Fifa e às multinacionais que com ela colaboram. Em 2000, o relógio comemorativo aos 500 anos da descoberta do Brasil, concebido pelo designer Hans Donner, também foi destruído, numa forma de protestar contra a Rede Globo, responsável pela iniciativa. Mais recentemente, o corte de árvores na região da Usina do Gasômetro, com o intuito de realizar obras viárias, foi alvo de protestos furiosos. Longe de ser uma cidade bonita e não possuindo atrativos turísticos, Porto Alegre tem contra si, ainda, a extrema dificuldade de fazer andar qualquer projeto mais ousado para transformar sua desolada paisagem. A revitalização do cais do porto, iniciativa que tramita há mais de uma década, esbarra em toda a sorte de entraves. Enquanto isso, a área do porto, que pelo projeto ganharia bares, restaurantes e uma nova configuração que a tornaria um local de lazer e turismo, continua a exibir sua imagem de decadência e abandono. A orla do Guaíba é outra fonte de protestos irados. No caso, a grita é contra a possibilidade de que ela venha a ser tomada por empreendimentos imobiliários que a descaracterizariam e privatizariam o que deve ser de usufruto público. Argumentos, sem dúvida, muito ponderáveis. Porém, como está é que não pode ficar. Se a ideia é fazer com que a orla possa ser desfrutada por todos, para que apreciem o famoso pôr do sol e a paisagem do Lago Guaíba, é preciso embelezar a área, dar-lhe condições de ser frequentada. Simplesmente relegá-la ao descaso não é bom para ninguém. Esse mau humor crônico contra qualquer proposta arquitetônica ou viária para a cidade não é resultado de um alto grau de politização, como podem pensar alguns. Sim, é preciso resistir ao massacrante ímpeto destruidor do capitalismo, com sua devastação ambiental, sua sôfrega especulação imobiliária e todos os danos que proporciona à qualidade de vida nas cidades em nome de sua sede de lucro. Uma cidade, no entanto, é um organismo em constante mutação, não pode parar no tempo. Deixar de construir ou ampliar uma avenida para não ter de cortar algumas árvores, impedir o andamento de um projeto de revitalização de uma zona portuária sucateada, condenar a orla lacustre a ser, tão somente, um matagal que acumula lixo e entulho, não é nada politizado, nem sequer inteligente. As manifestações arroladas ao longo desse texto são, apenas, insensatas e patéticas. O ativismo gaúcho tem como únicos efeitos concretos deixar o Rio Grande do Sul, cada vez mais, entregue à exaltação de um passado pretensamente glorioso, e ficar para trás na marcha do presente.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A cara da ditadura

A Comissão da Verdade colheu, hoje, o depoimento do coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra. Ele obteve na Justiça autorização para ficar calado durante o depoimento, para o qual foi convocado pela comissão, mas resolveu se manifestar. Pediu para fazer uma declaração inicial, e depois respondeu a algumas perguntas. Foi melhor assim. Ao falar, Ustra permitiu que o país visse a cara da ditadura. O coronel, de 29/09/1970 a 23/01/1974 foi chefe do Destacamento de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), do II Exército, orgão de repressão política durante o regime militar. Ustra, como costumam fazer outros artífices do golpe militar, afirmou que a presidente Dilma Rousseff participou de "organizações terroristas" com intenção de implantar o comunismo no Brasil. Declarou, ainda, que se os militares não tivessem lutado, o Brasil estaria sob uma "ditadura do proletariado". Os melhores momentos do depoimento de Ustra, no entanto, ocorreram depois da intervenção do conselheiro Claudio Fonteles. Primeiramente, Fonteles apresentou documentos que apontam 50 mortes no Doi-Codi durante o período em que o orgão foi chefiado por Ustra. O coronel disse que não houve mortes na sede do Doi-Codi, mas "em combate". Já havia declarado, um pouco antes, que agiu com consciência, com tranquilidade, não ocultou cadáver, nem cometeu assassinatos, sempre agiu dentro "da lei e da ordem". Fonteles também perguntou se Ustra aceitaria uma acareação com o médico e vereador de São Paulo, Gilberto Natalini (PV), que foi torturado nos porões do Doi-Codi. Ustra, exaltado, disse que não faria acareação com um  terrorista. Natalini reagiu no mesmo tom, dizendo ser um homem de bem e que Ustra é que era terrorista. Estabeleceu-se, então, um bate-boca que levou ao encerramento da sessão. Natalini afirmou, depois, que foi agredido pelo próprio Ustra nas dependências do Doi-Codi. O depoimento do ex-sargento Marival Chaves, foi, igualmente, esclarecedor. Chaves declarou que Ustra, capitão à época, era "o senhor da vida e da morte", colocando por terra o discurso do coronel reformado. O que  é doloroso é constatar que um criminoso tão desprezível quanto Ustra continue livre e impune, enquanto os familiares de suas vítimas sofrem a dor da ausência. Não basta esclarecer os crimes hediondos da ditadura, é preciso punir seus autores.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

O escândalo do leite

Num país acostumado aos escândalos, o mais novo é o do leite adulterado, ocorrido no Rio Grande do Sul. A operação que desbaratou o esquema criminoso foi denominada de "Leite Compen$ado". Nada mais pertinente que o cifrão substituindo o "s" na palavra "compensado". Afinal, neste, como em tantos outros escândalos, a grande motivação foi financeira. A fraude, praticada pelos "leiteiros", como são chamados os responsáveis pelo transporte e coleta do leite para as indústrias, buscava elevar o volume do produto com acréscimo de água e manter suas proteínas com a adição de ureia. A ureia, quando diluída em água, dá origem ao formol, produto químico considerado cancerígeno. Afora isso, a água utilizada na adulteração, possivelmente, era contaminada. Um verdadeiro festival de horrores que levou à retirada das gôndolas dos supermercados de caixas de leite das marcas Bom Gosto/Líder, Italac, Mu-Mu e Latvida, e que, é claro, vai gerar enorme insegurança nos consumidores, daqui para a frente. Com o aumento do volume transportado, os "leiteiros" lucravam 10% a mais que os 7% já pagos sobre o preço do leite cru. A investigação da Operação "Leite Compen$ado" começou em março, depois de o Ministério da Agricultura ter confirmado, no segundo semestre de 2012, a presença de formol em amostras de leite. Conforme o promotor de Justiça Mauro Rockenbach, os envolvidos no caso conheciam o risco para o consumidor."Em escuta telefônica, um empresário pedia ao seu motorista que, antes da mistura de água e ureia, separasse o leite bom para ser consumido por sua família", informou Rockenbach. Também foi apurado que um grupo sabia com antecedência a data da visita de fiscais do Ministério da Agricultura aos postos de recebimento do leite para coleta de amostras. Avisados antecipadamente, os empresários não enviavam o leite fraudado nestes dias. A operação resultou na prisão de oito pessoas, sete em Ibirubá e uma Guaporé. A sede desmedida de lucro, mais uma vez, se volta contra os interesses dos cidadãos. No caso em questão, pondo em risco a sua saúde. No capitalismo, o dinheiro sempre fala mais alto.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Nenhuma surpresa

Não houve nenhuma surpresa nos resultados dos jogos que envolviam clubes brasileiros, hoje à noite, pelas oitavas de final da Libertadores. Mesmo que se saiba que, nos confrontos do tipo "mata-mata", nem sempre vença o melhor, dessa vez a lógica prevaleceu. No Independência, o Atlético Mineiro goleou o São Paulo por 4 x 1, e poderia ter feito muito mais, pois teve chances para isso. O primeiro gol do Atlético Mineiro saiu aos 17 minutos do primeiro tempo, o que tornou a classificação do São Paulo, que já havia perdido o primeiro jogo, em casa, por 2 x 1, praticamente inviável. A partir daí, o Atlético se impôs no jogo e, no segundo tempo, deslanchou, chegando a fazer 4 x 0, cedendo um gol, mas, depois, perdendo a oportunidade de ampliar ainda mais a goleada. Jô, que marcou três gols, Diego Tardelli, que fez o outro, Bernard e Ronaldinho, foram os grandes nomes do Atlético Mineiro. O São Paulo não conseguiu deter o adversário, para quem perdeu três dos quatro jogos disputados entre os dois clubes na competição. A desclassificação da Libertadores com um balaio de gols e um banho de bola, somada à eliminação no Campeonato Paulista para o Corinthians, ocorrida no domingo, provavelmente levarão o São Paulo a fazer sensíveis mudanças no futebol visando o restante do ano. Outro jogo que confirmou a tendência de antes da partida foi Fluminense 2 x 0 Emelec, em São Januário. O Fluminense havia perdido o primeiro jogo, por 2 x 1, devido a um pênalti inexistente marcado em favor do Emelec. Bastava-lhe, no entanto, uma vitória por 1 x 0 para obter a sua classificação. Com um gol marcado no primeiro tempo, o Fluminense ficou  mais tranquilo. No segundo tempo, com o adversário abusando das faltas e tendo dois jogadores expulsos, o Fluminense fez mais um gol, confirmando a sua classificação para as quartas de final. Agora, resta a expectativa de que, na próxima semana, Grêmio, Corinthians e Palmeiras também obtenham suas classificações, o que faria com que o São Paulo fosse o único clube brasileiro a não prosseguir na competição.