terça-feira, 3 de abril de 2012

Aírton

O futebol do Rio Grande do Sul perdeu, hoje, o seu maior zagueiro de todos os tempos, Airton Ferreira da Silva, o "Pavilhão", que assim ficou conhecido quando o Força e Luz, clube pelo qual jogava, negociou-o com o Grêmio em troca do pavilhão social do antigo estádio da Baixada. Aírton atingiu o estrelato no Grêmio dos anos 50 e 60, que ganhou 12 campeonatos gaúchos em 13 disputados. Chegou a ser convocado para a Seleção Brasileira e teve uma passagem pelo Santos de Pelé. Com uma notável técnica, Aírton, mesmo sendo zagueiro, não costumava cometer faltas. Aírton, contudo, jogou numa época em que a televisão ainda estava em seus primórdios no Rio Grande do Sul, e, por isso, suas atuações magníficas ficaram restritas às páginas dos jornais da época e à memória de quem as assistiu, não lhe dando uma fama, após o encerramento da carreira, do tamanho que merecia. Sua ligação com o Grêmio era tão forte que morava a poucos metros de distância do Estádio Olímpico. Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente e de conversarmos algumas vezes. Afora o craque que foi, Aírton também era um ser humano simples e afável. Sua morte deixa de luto não apenas o Grêmio, do qual foi uma das maiores expressões, mas o futebol gaúcho como um todo. Esperemos que ele receba homenagens na medida da sua importância. Aírton merece que seu nome seja dado a competições, troféus, avenidas, estádios. Seria o justo reconhecimento a um dos maiores nomes da história do futebol gaúcho.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Enfrentando um tabu histórico

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, já teria garantido o seu lugar na história pelo simples fato de ser o primeiro negro a comandar um país que durante anos viveu numa condição de racismo explícito, mas está, afora isso, ousando enfrentar uma questão que ainda é tabu entre os americanos. Obama quer aumentar os impostos para os americanos mais ricos. Em seu discurso semanal por rádio e internet, realizado no último sábado, Obama destacou que são injustas as vantagens concedidas pelo atual sistema de impostos para os que têm rendimentos mais elevados. Obama citou multimilionários como o investidor Warren Buffet e o fundador da Microsoft, Bill Gates, que, sob o atual sistema de impostos, estão pagando taxas mais baixas que os secretários de seu governo. O presidente americano chegou a perguntar: "Queremos seguir concedendo taxas baixas a americanos como eu, ou  Buffet, ou Gates, pessoas que não precisam disso e que nunca pediram isso? Ou queremos continuar investindo dinheiro para fazer nossa economia crescer e nos mantermos seguros?" Barack Obama está comprando uma briga indigesta. O conservadorismo americano sempre recusou a ideia de impostos altos paras os mais ricos. Impedir a elevação de impostos, ou a criação de novas taxações,  é uma bandeira permanente do Partido Republicano. A evidente injustiça social de tal situação não comove os republicanos, defensores intransigentes que são dos privilégios dos mais ricos. Não é fácil bater de frente com algo tão arraigado na cultura americana. Obama, contudo, deu o primeiro passo. A sabedoria popular ensina que não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. A fala de Obama pode ser o início de um processo que culmine numa revisão de conceitos nos Estados Unidos, cujos reflexos se fariam notar em vários outros países, inclusive o Brasil, onde a mesma injustiça tributária é praticada. Uma mudança que, ainda, parece distante, mas, a partir do pronunciamento de Obama, tornou-se mais factível.

domingo, 1 de abril de 2012

Preocupações

As atuações de Grêmio e Inter, hoje à tarde, deixaram margem para preocupações de seus torcedores. O caso do Grêmio é mais grave, afinal perdeu para o Pelotas, na Boca do Lobo, por 1 x 0, enquanto o Inter venceu o Canoas, pelo mesmo placar, no Beira-Rio. Ambos os jogos foram pelo Campeonato Gaúcho, no qual, em que pese o baixo nível técnico dos adversários, Grêmio e Inter não conseguem jogar bem. O Inter usou o argumento de que estava com a cabeça no jogo contra o Santos, pela Libertadores, na próxima quarta-feira, para justificar sua pífia atuação. A desculpa é válida, mas de um time que estava com o que tinha de melhor, no momento, em campo, se podia esperar bem mais. Sem contar que, no jogo anterior pelo Gauchão, mesmo que com a atenuante de estar muito desfalcado, o Inter também fez uma apresentação muito fraca contra o Lajeadense, em Lajeado, empatando em 0 x 0. As atuações ruins, somadas aos desfalques de Guiñazu, D'Alessandro e Oscar, fazem com que o jogo contra o Santos, mesmo sendo no Beira-Rio, não apresente perspectivas das mais otimistas para o Inter. Pior, contudo, é a situação do Grêmio. Perdeu sua invencibilidade sob o comando do técnico Vanderlei Luxemburgo e viu o Inter disparar na soma geral de pontos na competição. Levou um gol logo aos dois minutos de jogo, e mesmo tendo uma partida inteira para reagir, não conseguiu fazê-lo. Com exceção de Fernando, nenhum outro jogador teve uma boa atuação individual. Como agravante, Léo Gago declarou, após o jogo, que faltou ao time lutar mais em campo, o que, na verdade, vem acontecendo com o Grêmio há muito tempo, sem que nenhum técnico consiga alterar tal quadro. Talvez o Grêmio consiga, com o que vem jogando, passar pelo Ipatinga, na próxima fase da Copa do Brasil. Porém, se não evoluir muito, não poderá aspirar ao título em nenhuma das competições que está disputando. Com a ausência de Kléber, sem zagueiros qualificados e carente de um bom articulador no meio de campo, é muito improvável que o Grêmio consiga um futebol muito superior ao que vem exibindo. Com o que seus times mostraram hoje, os torcedores de Grêmio e Inter, por certo, terminaram o dia cheios de inquietações quanto ao que o futuro lhes reserva.

sábado, 31 de março de 2012

O prolongamento de uma impunidade

Mais um 31 de março chega, e lá se vão 48 anos da eclosão de um abjeto golpe de estado que jogou o Brasil numa pútrida e ignominiosa ditadura militar. Porém, ao contrário de países vizinhos, que passaram pelo mesmo drama mas, ainda hoje, estão punindo os seus causadores, o Brasil, depois de quase meio século, insiste em manter impunes os torturadores e assassinos que lançaram-no num período de trevas. Os setores que promoveram o golpe seguem atuantes, talvez enfraquecidos, mas não desmobilizados. A cada vez que se fala em tomar medidas para punir devidamente os criminosos da ditadura, saem a berrar que a anistia de 1979 era para ambos os lados, e que, portanto, não há reparação a ser buscada pelas vítimas do regime de exceção. O argumento é cínico. Como muito bem coloca o jornalista Juremir Machado da Silva, em sua coluna de hoje no jornal Correio do Povo, a anistia foi um artifício dos golpistas que concedeu "perdão" a quem já tinha sido punido por sofrer com todo o tipo de ações arbitrárias e violentas e um modo de evitar que quem foi responsável por tais atos viesse a pagar por eles. Na verdade foi anistia para um lado só, pois enquanto os opositores da ditadura pagaram com a própria vida por seu idealismo, seus algozes seguem soltos pelas ruas. O Brasil precisa, para honrar a memória dos que tombaram pela defesa da liberdade, punir, exemplar e definitivamente, todos os que atuaram no espúrio golpe. Não é admissível, também, que em nome da liberdade de expressão, pessoas continuem a defender a ditadura, quer seja com cerimônias alusivas à data do golpe, ou com artigos que o exaltem. Tais cerimônias devem ser consideradas ilegais, por ofenderem a condição democrática vivida, atualmente, pelo país, e seus promotores, portanto, ainda que sejam altas autoridades militares, devem ser severamente punidos, o que deveria incluir, até mesmo, a detenção, e a exclusão das Forças Armadas. Os que escrevem artigos rebelando-se contra ações do governo que objetivem o esclarecimento dos crimes da ditadura, ou insistam em exaltar aquele período, devem, da mesma forma, responder perante a lei por sua atitude. A liberdade de expressão não contempla o direito de se defender o golpismo, a supressão da normalidade institucional, as torturas, os assassinatos. Não é mais possível ser condescendente com quem praticou atos tão bárbaros. O 31 de março deveria ser instituído como uma data de luto nacional, pois, nesse dia, a liberdade foi ferida de morte.

O humor que agride

Já houve quem dissesse, com razão, de que só existem dois tipos de humor: o engraçado e o sem graça. Fazer humor está longe de ser uma tarefa fácil, pois exige talento. Porém, entre os ingredientes para fazer alguém rir não devem constar a grosseria, o preconceito e a vulgaridade. Chico Anysio, recentemente falecido, foi uma demonstração clara de como é possível fazer humor, sendo por vezes bastante incisivo, sem apelar para baixezas. Mesmo quando abordava questões como a homossexualidade, em personagens como Painho e Haroldo, Chico não o fazia de modo ofensivo ou discriminatório. No entanto, de uns tempos para cá, foi surgindo uma nova forma de fazer humor em que os limites do bom gosto foram totalmente rompidos. Os adeptos de tal vertente humorística consideram, ao que parece, que nenhuma abordagem pode lhes ser vedada, pois isso cercearia sua liberdade de criação e expressão. Ocorre que, felizmente, nem todos partilham de tal visão. Em setembro de 2011, durante uma edição do programa "CQC", da Rede Bandeirantes, o humorista Rafinha Bastos fez uma alusão estúpida e grosseira sobre a cantora Wanessa Camargo e seu filho, que estava por nascer. Rafinha, que já tinha "pisado na bola"  em outras ocasiões e se retratado, dessa vez enfrentou uma reação mais dura para seus excessos e, num primeiro momento, foi suspenso por tempo indeterminado do programa, ao qual acabaria por não retornar. Mais tarde, deixou a Bandeirantes e assinou contrato com outra rede de televisão. Parece, contudo, que o fato não serviu de exemplo. Há poucos dias, por ocasião da passagem da data que marcava os 52 anos de nascimento do cantor e compositor Renato Russo, falecido em 1996, Danilo Gentili, outro humorista saído das fileiras do CQC, disse que "Renato Russo estaria completando 52 anos... se tivesse usado camisinha". Para alguns, tomara que muito poucos, a tirada de Gentili pode ter soado engraçada. Para mim, e espero que para a grande maioria das pessoas, foi apenas estúpida, grosseira e homofóbica. Usar a passagem da data como mote para debochar da condição sexual do artista foi algo abominável e desprezível. Revela um comportamento machista, típico de uma sociedade autoritária, incompatível com os tempos democráticos que vivemos no país. Tal e qual seu ex-colega, Gentili "pisou na bola". O tipo de humor que abraçaram, incrivelmente, não faz rir, a não ser aos néscios. Ao contrário, para quem tem um mínimo de sensibilidade, só gera desprezo e indignação.

quinta-feira, 29 de março de 2012

O primeiro jogo sem Kleber

O primeiro jogo do Grêmio após a fratura de Kléber, que o deixará quatro meses afastado, não apresentou maiores dificuldades. O Grêmio goleou o Avenida por 4 x 0, hoje à noite, no Olímpico, em jogo válido pelo Campeonato Gaúcho. Com um minuto de jogo, o Grêmio já abria o placar, com um gol de Marcelo Moreno, que voltou a mandar a bola para as redes, cobrando um pênalti. Após o 2 x 0, o Grêmio arrefeceu um pouco o seu ímpeto, e não fez mais gols no primeiro tempo. No segundo tempo, contudo, o Grêmio voltou a impor um ritmo forte de jogo e marcou mais dois gols. O Avenida é um adversário  muito fraco, o que não permite maiores conclusões sobre o estágio de rendimento do time, mas foi uma boa vitória, que já concedeu ao Grêmio a condição de ataque mais positivo do Gauchão. Tudo indica que Grêmio e Inter confirmarão o primeiro lugar em seus grupos e, assim, só poderão se enfrentar na decisão do segundo turno. Nesse caso, haja coração, pois só um deles sairá vencedor para disputar com o Caxias, ganhador do primeiro turno, o título da competição.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Cantando até o fim

Outra perda sofrida pelo país foi a da cantora Ademilde Fonseca, uma das representantes da chamada "Era do Rádio". Sua morte vem se juntar a de outro representante dessa época, o cantor Jorge Goulart, ocorrida há poucos dias. Ademilde destacou-se como intérprete de chorinhos. Mesmo com o término do período áureo do rádio, prosseguiu com sua carreira e, ultimamente, cantava junto com a filha. Estava com 91 anos e, na semana passada, havia se apresentado em Porto Alegre. Apenas dois dias antes de sua morte, concedeu uma entrevista para a televisão, ainda inédita na sua íntegra, em que se mostrava jovial e bem disposta, na qual também cantou. Um exemplo notável de quem não abandonou jamais a sua atividade. Mesmo com uma idade tão avançada, cantou, literalmente, até o fim de sua vida.

Perdas

Os últimos dias não tem sido fáceis para o país, em termos de perda de grandes personalidades. Depois da morte de Chico Anysio, talvez seu maior humorista, o Brasil ficou também sem o talento múltiplo de Millôr Fernandes, jornalista, teatrólogo, cartunista e desenhista. Millôr morreu com idade incerta, pois, de acordo com alguns documentos, teria 87 anos e, conforme outros, estaria com 89. De uma forma ou de outra, foi uma longa e profícua existência, de um homem que marcou presença pela inteligência e independência intelectual. Luís Fernando Veríssimo foi muito feliz quando disse, a respeito do falecimento de Millôr, de que hoje o Brasil ficou um pouco mais burro. Em sua extensa trajetória, Millôr trabalhou nas revistas "O Cruzeiro" e "Veja" e fez parte do notável grupo do mítico e irreverente jornal "O Pasquim", junto com Ziraldo, Jaguar, Tarso de Castro, Sérgio Cabral, Paulo Francis, entre outros. Millôr é representante de uma época em que a imprensa era muito mais crítica e combativa do que hoje. Trabalhou, durante muitos anos, tendo de enfrentar a censura aos meios de comunicação imposta pelo regime militar. Nunca se dobrou. Com suas charges e textos recheados de um humor incisivo soube enfrentar as agruras da ditadura. Jamais bajulou os poderosos de plantão. Foi uma referência de como deve ser o autêntico jornalismo, crítico e independente. Talvez tenha sido o último representante de uma linhagem de homens de imprensa para os quais, infelizmente, não se vislumbra sucessores.

terça-feira, 27 de março de 2012

Falso moralista

O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) é mais um exemplar de uma espécie prolífica no Congresso Nacional, a dos falsos moralistas. Como líder de seu partido no Senado, Demóstenes mostrou-se um obstinado oposicionista dos governos dos presidentes Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Roussef. Constantemente, o senador goiano vinha a público com denúncias contra o governo, farejava escândalos, posava de paladino em defesa da ética. Eis que o tempo passou e Demóstenes e seu personagem de homem impoluto foram desmascarados. Descobriu-se que Demóstenes tem uma sólida amizade com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, o qual já lhe deu presentes caros, e a quem recorreu para o pagamento de algumas despesas, como, por exemplo, os gastos com um táxi aéreo. O envolvimento do senador com o bicheiro, descoberto em gravações de conversas telefônicas, repercutiu amplamente entre seus pares e já levou Demóstenes a renunciar ao cargo de líder do DEM no Senado. Demóstenes Torres terá, é claro, ampla possibilidade de se defender das acusações que lhe são imputadas, mas, se não conseguir provar sua inocência, poderá, até mesmo, ser expulso de seu partido. O DEM é um partido que, nos últimos anos, tem frequentado o noticiário com escândalos envolvendo seus integrantes. José Roberto Arruda, por exemplo, perdeu o cargo de governador do Distrito Federal pela comprovação de práticas de corrupção. Com escassez crescente de eleitores, o DEM, que nada é mais é do que o antigo PFL com outro nome, caminha a passos largos para sair de cena. O partido, um dos sucedâneos, junto com o atual PP, da antiga Arena, legenda de sustentação da ditadura militar, caso venha a desaparecer do cenário político, não deixará saudades.

domingo, 25 de março de 2012

Vitórias diferentes

Grêmio e Inter venceram seus jogos na tarde de hoje, e mantiveram a liderança de seus grupos, no segundo turno do Campeonato Gaúcho, com 100% de aproveitamento. As semelhanças acabam aí. Enquanto o Inter goleou o São José por 3 x 0, sem fazer maior esforço, o Grêmio jogou uma má partida e, mesmo saindo na frente no placar logo no início do jogo, penou para ganhar do Cruzeiro por 2 x 1, com um  gol de pênalti nos acréscimos. Não bastasse mais uma atuação ruim do time, o Grêmio ainda teve a terrível perda de Kléber, principal jogador contratado pelo clube em 2012, que sofreu uma fratura na fíbula da perna direita, tendo que realizar uma cirurgia, e ficando afastado por três meses do futebol. Uma péssima notícia, pois o time ainda não está consolidado, e Kléber é um dos seus pilares. O fato ocorrido com Kléber enseja que se aborde a questão da arbitragem. O Grêmio jogou mal, é verdade, mas a atuação do árbitro Leandro Vuaden não foi nem um pouco melhor. Vuaden permitiu que o Cruzeiro abusasse das faltas, não expulsou jogadores que reincidiram em faltas violentas e que já tinham o cartão amarelo, deixou de marcar um pênalti claríssimo num toque de mão de Léo Carioca ainda no primeiro tempo, e não teria marcado o que deu a vitória para o Grêmio se não tivesse havido a intervenção do bandeirinha. O desempenho de Vuaden confirmou que ele está em muito má fase e comprovou, mais uma vez, o nível deficiente da arbitragem no Rio Grande do Sul. Com a lesão de Kléber, caçado pelos adversários com a conivência dos árbitros, o Grêmio sofre um prejuízo irrecuperável, que poderá lhe alijar da conquista dos títulos das competições que está disputando, o Gauchão e a Copa do Brasil. Enquanto isso, tudo é tranquilidade no Inter, que goleou o São José, viu Leandro Damião marcar mais dois gols, e teve outra boa atuação de Dátolo, que também mandou uma bola para as redes. Se o Grêmio vence, mas não convence, o Inter vai bem tanto no campeonato estadual quanto na Libertadores. Até aqui, 2012 tem sido mais um ano vermelho.