quinta-feira, 19 de maio de 2011

Emenda pior que o soneto

A alegação, por parte do ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República, Antônio Palocci Filho, de que não foi o único ex-ministro a enriquecer, é o que se pode classificar de uma emenda pior do que o soneto. Palocci se referia a sua condição de ex-ministro da Fazenda que, após deixar o cargo, aumentou em 20 vezes o seu patrimônio pessoal, num período de apenas quatro anos. Como exemplo, citou nomes como os de Pedro Malan, Armínio Fraga e Henrique Meirelles, que passaram pelo Ministério da Fazenda ou presidiram o Banco Central e são homens ricos. O que Palocci esqueceu de observar é que todos os três citados já trabalhavam no mercado financeiro antes de exercerem cargos no governo e de que suas fortunas não foram construídas após deixarem tais funções, pois já eram ricos antes de assumí-las. Palocci, por sua vez, é médico por formação, e seu patrimônio só se multiplicou após sua saída do Ministério da Fazenda. Afora isso, o fato atual já é a terceira situação nebulosa que Palocci enfrenta em sua trajetória política. Antes de ser ministro do governo Lula, Palocci foi prefeito de Ribeirão Preto (SP), tendo sua administração manchada por denúncias sobre a existência de uma máfia da coleta de lixo no município. Posteriormente, já como ministro da Fazenda de Lula, envolveu-se no caso da violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa, episódio que resultou em sua saída do cargo. Agora, reabilitado de seu ostracismo ao voltar para a cena política no mais importante cargo do governo da presidente Dilma Roussef (PT), já se vê, novamente, numa condição de extremo desgaste público. O pior de tudo é que a sociedade ficará sem as respostas necessárias para entender tão súbito enriquecimento. Palocci afirma que todo o patrimônio que possui está devidamente declarado para a Receita Federal. A fortuna foi obtida com a prestação de serviços de consultoria por parte da empresa Projeto, de propriedade do ministro. Seria fundamental saber-se que serviços de consultoria foram esses e para quais empresas foram prestados, mas os mesmos são protegidos por uma absurda cláusula de confidencialidade, que só favorece a que se pratiquem toda a sorte de falcatruas, em detrimento do interesse público. Palocci, que exercia o cargo de deputado federal no período em que enriqueceu, de 2006 a 2010, argumentou, também, não haver proibição quanto a parlamentares exercerem atividade empresarial. Resta saber se pode ser considerado aceitável alguém sair do governo num dia e, no seguinte, começar a prestar consultoria para empresas privadas valendo-se dos conhecimentos que adquiriu sobre o funcionamento das estruturas de poder e, paralelamente, ainda exercer um cargo de representação popular, como o de deputado federal. Talvez nada disso seja ilegal, como alega Palocci, mas, convenhamos, é, absolutamente, imoral.

terça-feira, 17 de maio de 2011

O país real e as ilhas da fantasia

Para o cidadão comum, que constitui a imensa maioria da população brasileira, aquele que sacoleja em ônibus lotados para ir trabalhar, enfrenta filas para marcar consultas médicas, vê o minguado salário acabar antes do fim do mês e mora em áreas desassistidas pela segurança pública, certas notícias veiculadas pelos meios de comunicação devem parecer surrealistas. No meio político, principalmente, citam-se ganhos e gastos de altas somas como se fosse algo extremamente banal. Agora, por exemplo, o noticiário tem dado conta de que o ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República, Antônio Palocci Filho, num período de apenas quatro anos, entre 2006 e 2010, aumentou em 20 vezes o seu patrimônio, que passou de R$ 375 mil para cerca de R$ 7,5 milhões! A empresa de consultoria Projeto, de sua propriedade, comprou, no final de 2010, um apartamento em São Paulo por R$ 6,6 milhões. Nem é o caso de se abordar o quão suspeita é essa acumulação de riqueza em tão breve espaço de tempo. Afinal, como muto bem colocou o presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, Ophir Cavalcante, só há duas formas de enriquecer rapidamente: recebendo uma herança ou ganhando na loteria. Independentemente da origem lícita ou não de tais somas, o que é espantoso é o alcance das cifras. O noticiário político dá conta, também, de que um único jantar oferecido pelo presidente do Senado, José Sarney (PMDB - AP) ao ministro César Asfor Rocha, do Superior Tribunal de Justiça, para 60 convidados, custou a quantia de R$ 23,9 mil, que foi paga pelo Senado. Após a revelação da conta pela ONG Contas Abertas, Sarney ressarciu o Senado. Um único jantar a um custo equivalente ao de um carro popular! Passando-se para o noticiário esportivo, tudo segue na mesma toada. Fica-se sabendo, por exemplo, que o técnico do São Paulo, Paulo César Carpegiani, será mantido no cargo, apesar dos resultados insatisfatórios que vem obtendo. O que isso tem de mais? Acontece que Carpegiani permanecerá não porque o clube tenha apreço por seu trabalho, mas pelo fato de sua dispensa implicar no pagamento de uma multa rescisória de R$ 1 milhão, da qual o técnico já informou de que não abre mão. A política e o futebol estão de costas para o país real. São, efetivamente, ilhas da fantasia.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O terceiro turno da eleição

A revista "Veja", de linha editorial claramente neoliberal, dedica-se, há anos, a tarefa de combater tudo que entenda ser de esquerda. Suas matérias procuram incutir nos leitores o temor de uma "sovietização" do Estado brasileiro, com a abolição da democracia e da liberdade de imprensa. Os partidos e políticos de esquerda, principalmente os do PT, são retratados em suas páginas como criminosos liberticidas. Apesar de todo o empenho da publicação, Luiz Inácio Lula da Silva elegeu-se duas vezes presidente da República e fez sua sucessora no cargo, Dilma Roussef. O fato não foi bem assimilado pela revista que, parece, resolveu criar uma espécie de terceiro turno da eleição, aludindo a supostas conexões do governo petista com as organizações terroristas Al Qaeda e Farc. Nem o fato de que na prática, nos oito anos de governo de Lula, nada foi feito que comprometesse os fundamentos do Estado democrático de direito, é levado em conta por "Veja". A publicação insiste em sustentar que o governo quer silenciar a imprensa, dominar o aparelho de Estado, eternizar-se no poder. O conteúdo das matérias das últimas ediçoes, de tão delirante, se encaminha para o folclórico. Infelizmente, para os seus editores, todo esse empenho de convencimento da revista tem se revelado de efeito nulo. Lula, apesar de toda a carga desferida pela publicação contra ele, tornou-se o presidente de mais altos índices de popularidade da história do país. Sua sucessora no cargo, Dilma Roussef, vai pelo mesmo caminho. "Veja" criou uma realidade paralela, tentando estabelecer um terceiro turno de uma eleição já encerrada.  Enquanto isso, na vida real, fora das fantasias tresloucadas da revista, a oposição se mostra cada vez mais desarticulada, e o partido mais à direita do espectro político, o DEM, caminha para a extinção. A vontade do eleitor é soberana e ele não se deixa assustar por falsos fantasmas.

domingo, 15 de maio de 2011

Outras decisões

As outras decisões de campeonatos estaduais que aconteceram no fim de semana só apresentaram uma surpresa, que foi a conquista do título de campeão baiano pelo Bahia de Feira. O Vitória, que havia empatado o primeiro jogo fora de casa, jogava por um empate no Barradão para conquistar o pentacampeonato. Saiu na frente no placar, mas permitiu a virada e perdeu o título. Com isso, o veteraníssimo técnico Antônio Lopes, que foi mantido no cargo pelo Vitória mesmo após o rebaixamento no Campeonato Brasileiro em 2010, deveria pensar, seriamente, em se aposentar. O Atlético Mineiro não soube fazer valer o seu favoritismo, após a vitória no primeiro jogo, e perdeu o titulo do Campeonato Mineiro para o Cruzeiro, um resultado normal, pois a "Raposa" tem um time bem melhor do que o do "Galo". O Santos apenas confirmou o que todos já esperavam e conquistou o bicampeonato paulista, ganhando do Corinthians por 2 x 1. O Santa Cruz, mesmo perdendo por 1 x 0 para o Sport, foi campeão pernambucano, o que não ocorria desde 2006 e, dessa forma, impediu o adversário de obter o hexacampeonato estadual, feito que continua exclusivo do Náutico. A destacar, o público excepcional no estádio do Arruda: 62 mil pessoas! O resultado mais insólito foi o do Campeonato Catarinense. O clube campeão, o Chapecoense, foi rebaixado no ano passado e deveria ter disputado a segunda divisão em 2011. Isso só não aconteceu porque o Hermann Aichinger desistiu de participar do campeonato da primeira divisão e o Chapecoense entrou no seu lugar. No Campeonato Goiano, o Atlético Goianiense confirmou o seu favoritismo e foi campeão com dois empates de 1 x 1 com o Goiás. No geral, afora o título do Bahia de Feira e a curiosa conquista do Chapecoense, os campeonatos estaduais tiveram, em 2011, resultados normais.

Grêmio comprovou que não queria ser campeão

Há duas semanas, depois do Gre-Nal que decidiu o segundo turno do Campeonato Gaúcho em favor do Inter, escrevi um comentário em que afirmava que o Grêmio não queria ser campeão. O que aconteceu hoje, no estádio Olímpico, apenas confirmou aquela assertiva. O Grêmio perdeu o Gauchão mais fácil da sua história. Foi o vencedor do primeiro turno e, se ganhasse também o segundo turno, seria, automaticamente, o campeão gaúcho. Teve todas as chances para obter essa conquista, mas desperdiçou-as uma a uma. Nos seus três últimos jogos contra clubes do interior fora de casa, bastava ganhar um que levaria a decisão do segundo turno para o Olímpico. Incrivelmente, perdeu para o Juventude de virada, tendo um jogador a mais em campo, e apenas empatou com Ypíranga de Erechim e Santa Cruz, e teve de decidir fora de casa, contra o Inter. Ainda assim, conseguiu empatar, só perdendo na cobrança de tiros livres da marca do pênalti. Fez a primeira partida da decisão, novamente, no Beira-Rio, e venceu por 3 x 2,  resultado que lhe permitia, no segundo jogo, no Olímpico, até mesmo perder por 1 x 0 ou 2 x 1 e, mesmo assim, ser campeão. Saiu ganhando por 1 x 0 e permitiu a virada para 3 x 2 que levou a decisão, mais uma vez, para os tiros livres da marca do pênalti, onde acabou derrotado. O futebol, como a vida, é feito de detalhes. O Grêmio cometeu vários erros que acabaram sendo fatais no Gauchão. Hoje, o maior deles foi a escalação de Víctor. Marcelo Grohe teve grandes atuações nos dois clássicos anteriores e estava em ritmo de jogo, enquanto Víctor ficou 22 dias sem jogar. Ainda que Víctor seja titular, sua volta deveria se dar na estréia do Campeonato Brasileiro, e não numa decisão. No jogo, comprovando que não vai bem em Gre-Nal, ao contrário de Marcelo Grohe que, aos 19 anos, foi campeão gaúcho contra o Inter, dentro do Beira-Rio, Victor não fez nenhuma grande defesa, falhou no gol de Andrezinho, e cometeu um pênalti absolutamente desnecessário sobre Zé Roberto. Outro erro do técnico do Grêmio, Renato, foi escalar William Magrão e Adílson para a cobrança de tiros livres da marca do pênalti. William Magrão é, claramente, um jogador inseguro, de personalidade frágil, que não está apto a enfrentar o peso psicológico de situações como essa. Adílson também é instável psicologicamente, além de, principalmente, ser, tecnicamente, muito mau jogador. Se Borges, que parecia banido do clube, ficou no banco, entrou no jogo, e até fez o gol que levou a partida para os tiros livres da marca do pênalti, porque não foi relacionado para as cobranças? O Inter, por sua vez, começou o jogo muito mal, com uma esdrúxula escalação de três zagueiros e Kléber indo jogar no meio de campo. Saiu perdendo o jogo e levava um "chocolate" do Grêmio, até seu técnico, Falcão, retirar um dos zagueiros, Juan, e colocar Zé Roberto no meio, baixando Kléber para a sua posição de origem, a lateral esquerda. Zé Roberto mudou a face do jogo e, três minutos depois da sua entrada, o Inter já obtinha o gol de empate. Daí até o final da partida, Renato nada soube fazer para neutralizar Zé Roberto, que acabou sendo uma figura decisiva para o Inter. Oscar, que entrou no lugar de Andrezinho, que se lesionou, também teve boa atuação. Andrezinho, aliás, comprovou o acerto de Falcão em fixá-lo como titular, o que não aconteceu com nenhum outro técnico desde que o jogador chegou no Inter. Excelente cobrador de faltas e que, também, chuta muito bem de fora da área, Andrezinho é muito útil, como mostrou, hoje, mais uma vez. Porém, apesar de todos os acertos do Inter na partida, entendo que o resultado do campeonato se deveu muito mais aos erros e vacilações do Grêmio. Pode-se dizer, ainda que desagrade muitas pessoas, que foi o Grêmio que perdeu, não o Inter que ganhou.

sábado, 14 de maio de 2011

Decisões

Os campeonatos estaduais estão chegando ao seu final. Já não era sem tempo. São competições de baixo nível técnico e, portanto, pouco atrativas para o público, que não comparece em grande número aos seus jogos. Porém, após uma série de partidas desinteressantes contra adversários de pouca expressão, chega a decisão. Nessa hora, tudo muda de figura, pois há uma taça em jogo contra, geralmente, um tradicional rival. Será assim, no domingo, nas decisões dos campeonatos gaúcho, paulista e mineiro. Grêmio x Inter, Santos x Corinthians e Cruzeiro x Atlético Mineiro são jogos de grande rivalidade, que lotarão, por certo, o Olímpico, a Vila Belmiro e a Arena do Jacaré, em clima de grande tensão. Grêmio e Atlético Mineiro, por terem ganho a primeira partida, e o Santos, por decidir em casa, aparecem como os favoritos para obter os títulos de seus estados. Porém, nada está ganho ainda, pois em disputas entre grandes clubes, tudo pode acontecer. Os resultados de domingo certamente irão influir no ânimo de vencedores e de derrotados para  enfrentar o Campeonato Brasileiro, que começará uma semana depois. Aliás, a proximidade do início do Brasileirão é a boa notícia da vez. Finalmente, teremos jogos de melhor qualidade e no mais justo sistema de disputa, o de pontos corridos, com todos jogando contra todos, em turno e returno. Saímos das competições de formulismos e passamos para um campeonato de verdade. Depois de quase um semestre de campeonatos estaduais, é uma perspectiva alentadora.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Os grandes continuam a se dar mal

Continua o calvário dos grandes clubes brasileiros. Agora foi o São Paulo que, ao perder por 3 x 1 na quinta-feira para o Avaí, foi eliminado da Copa do Brasil, competição em que era considerado, por muitos, o maior favorito. Na verdade, quem se dispusesse a olhar o confronto mais detidamente veria que não houve nenhuma grande surpresa. O sistema de mata-mata iguala os disputantes, pois tudo se resolve em um enfrentamento direto em dois jogos, sem que haja influência de rodadas anteriores. Como o São Paulo ganhou por apenas 1 x 0 o primeiro jogo, realizado no Morumbi, era de se prever que tivesse muitas dificuldades na segunda partida, realizada no estádio da Ressacada. O São Paulo até saiu na frente, mas tomou a virada ao natural. Em partidas de mata-mata, mais uma vez ficou provado, tradição não ganha jogo. Dessa forma, só restou, entre os semifinalistas da Copa do Brasil, um único clube grande, o Vasco, que também se classiificou na quinta-feira, com o empate em 1 x 1 com o Atlético Paranaense, no estádio de São Januário. No entanto, não se deve considerar o Vasco favorito para ganhar o título da competição. Sua classiificação para as semiifinais foi obtida com dois empates e, no segundo e decisivo jogo, não apresentou um bom futebol, tendo, inclusive, saído atrás no placar. Como já foi dito, no sistema de mata-mata todos se equivalem. Sendo assim, é bastante provável que o campeão da Copa do Brasil, a exemplo do que já aconteceu com Criciúma, Juventude, Santo André e Paulista de Jundiaí, seja um clube de menor expressão do futebol brasileiro.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

A estação do metrô

Desde que Pedro Álvares Cabral chegou por aqui, o Brasil sempre se mostrou um país marcado pela desigualdade. No nosso amado solo pátrio, a sociedade sempre se viu dividida entre os muitos que quase nada tem e os poucos que quase tudo possuem. Assim, ao longo da história do país, vicejou a idéia do "quem pode mais chora menos". Trata-se de algo tão arraigado no jeito de ser do Brasil que, apesar de todas as transformações sociais ditadas pela passagem do tempo, permanece imutável. Mesmo nos maiores centros, onde, teoricamente, a sociedade deveria ter uma mentalidade mais arejada, a lei do mais forte segue prevalecendo. Um exemplo disso é o que está ocorrendo em São Paulo, a maior cidade do Brasil. Uma estação do metrô prevista para o bairro de Higienópolis, reduto de pessoas de bom poder aquisitivo, não deverá mais ser construída, por pressão de moradores do local. Alegam os moradores de Higienópolis que uma estação do metrô no bairro traria consigo uma série de inconvenientes como, por exemplo, o aumento no fluxo de pessoas que circulariam pelo local, quebrando sua tranquilidade, e o aparecimento, considerado indesejável, de vendedores ambulantes. Anteriormente, moradores do Pacaembu, outro bairro de pessoas bem aquinhoadas de São Paulo, também manifestaram contrariedade com a idéia da construção, ali, de uma estação do metrô. O que ocorre em São Paulo não é um fato isolado. Em Porto Alegre, num passado recente, aconteceram situações semelhantes. Na década de 90, quando decidiu-se que a cidade deveria ter um local permanente para os desfiles do Carnaval, onde seria construído um sambódromo, a primeira área sugerida foi junto ao Parque Marinha do Brasil, no bairro Menino Deus. A chiadeira foi enorme. Os moradores do bairro alegaram uma série de inconveniências para impedir a construção do sambódromo, entre elas, a presença, nas proximidades, de uma clínica geriátrica. O curioso é que a referida clínica fica próxima, também, ao estádio Beira-Rio e ao ginásio Gigantinho que, com seus jogos e shows, quebram constantemente a tranquilidade dos velhinhos, enquanto o Carnaval, como se sabe, dura apenas quatro dias a cada ano. Na verdade, o que movia a contrariedade com a construção de um sambódromo no local era, simplesmente o preconceito contra os pobres e os negros, sabidamente majoritários entre os apreciadores dos desfiles carnavalescos. A pressão foi tão forte que, mesmo que o prefeito de Porto Alegre, na ocasião, fosse um homem de esquerda, o atual governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, a idéia foi deixada de lado e o sambódromo, para satisfação plena dos que querem distância das camadas populares, foi construído no Porto Seco, uma área afastada do centro da cidade, longe das zonas tradicionais do Carnaval e do samba e, principalmente, de difícil acesso. A argumentação de que a construção erguida no Porto Seco seria não apenas para os desfiles carnavalescos, mas sim, uma pista de eventos, onde ocorreriam outras apresentações, era puro engodo. Acontecimentos como os desfiles do Sete de Setembro e da Revolução Farroupilha continuaram a ser realizados na área central da cidade, já que os mesmos não ferem a sensibilidade dos bem nascidos. Tempos mais tarde, já nos anos 2000, o traçado do chamado Conduto Forçado Álvaro Chaves-Goethe, obra subterrânea que visava combater o crônico problema dos alagamentos em determinadas regiões de Porto Alegre, teve de ser parcialmente alterado porque moradores de uma rua do Moinhos de Vento, bairro de classe alta da cidade, não aceitaram que árvores ali existentes fossem removidas. Este é o país em que vivemos. Enquanto milhões de pessoas são ignoradas em seus direitos mais básicos sem que seus protestos sejam ouvidos, os mais bem postos na escala social fazem de tudo para manter seus privilégios e, em geral, tem seus pedidos acolhidos pelos que exercem o poder. O Brasil vem evoluindo em muitos setores, mas continua tendo uma sociedade elitista e autoritária. Enquanto isso não mudar, a idéia de um país próspero e desenvolvido continuará sendo, apenas, uma intenção.

terça-feira, 10 de maio de 2011

A saída de Aod Cunha

No início do ano, o economista Aod Cunha, ex-secretário da Fazenda do Rio Grande do Sul no governo Yeda Crusius, assumiu como executivo remunerado do Inter. O fato foi efusivamente saudado por setores da imprensa esportiva que viam na contratação de Aod, economista de sólida formação e brilhante currículo, o caminho para que o Inter se consolidasse como um clube moderno, altamente profissionalizado, de grande eficiência gerencial. Seria o tão sonhado, para alguns, caminho para o fim do amadorismo e da improvisação administrativa dos grandes clubes. Previa-se um longo e árduo trabalho para Aod Cunha que culminaria, no entanto, num Inter administrado com a eficiência das grandes empresas. Tudo muito bonito, sem dúvida. No papel. Menos de seis meses depois de assumir o cargo, Aod Cunha deixou o Inter. Os mesmos que vibraram com sua contratação, por certo, lamentarão profundamente sua saída, e dirão que ela é a expressão de uma estrutura administrativa amadora e desorganizada, que resiste a evoluir e adotar padrões de eficiência empresarial. Na verdade, a saída de Aod em nada deslustra o Inter, afinal foi o clube que teve a idéia de contratá-lo, exatamente por entender que, com seu trabalho, poderia atingir um novo patamar administrativo. Se, num período tão curto, já optou-se por interromper o projeto, é muito provável que o responsável maior por tal desfecho seja o próprio Aod Cunha. Não é difícil imaginar que o economista, do alto do prestígio profissional de que desfruta e de sua excelente formação acadêmica, não deve ter aceitado qualquer reparo ou resistência de setores do clube às suas idéias e proposições. Dessa forma, em pouco tempo, sentiu-se desestimulado a prosseguir seu trabalho. Aí é que reside o equívoco de Aod e dos defensores entusiasmados de sua contratação. Conhecimentos acadêmicos, por mais sólidos e qualificados que sejam, precisam ser adaptados à realidade prática, ou constituirão mero acúmulo de informações sem aplicabilidade. Não passa de deslumbramento simplório imaginar que o futebol só possa avançar na sua estrutura administrativa com a entrada em cena de profissionais com o perfil de Aod. Foram os tão criticados dirigentes passionais e amadores que construíram a grandeza do futebol gaúcho e brasileiro. Grêmio e Inter não precisaram de nenhum brilhante economista remunerado para conquistarem, conjuntamente, cinco Campeonatos Brasileiros, cinco Copas do Brasil, quatro Taças Libertadores da América, duas Recopas Sul-Americanas e dois Campeonatos Mundiais. Aod Cunha pode ser muito bom no seu ramo de atividade, mas também não esqueçamos que um dos pretensos méritos da área econômica do governo Yeda Crusius, no qual atuou, o chamado "déficit zero", não passou de mera ficção. Ao contrário dos tantos que lamentam o fato, entendo que a sáida de Aod Cunha não trará nenhum prejuízo ao Inter. Como todo economista com o seu perfil, Aod tem muitas idéias que são brilhantes quando expostas num quadro negro ou em um tratado acadêmico, mas de pouca ou nenhuma aplicação fora da sala de aula. O Inter não perde nada com a saída de Aod e, de quebra, ainda deixa de arcar com o pagamento de um salário que, certamente, era bem polpudo.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

As razões da crise

Fala-se muito, nos últimos dias, da existência de uma grave crise técnica no futebol brasileiro. Por certo, há algum exagero nessa apreciação, motivada que foi pela eliminação de quatro brasileiros da Taça Libertadores da América numa mesma noite e por maus resultados de grandes clubes na Copa do Brasil.. Porém, se formos analisar com mais atenção veremos que existe uma caracterísitica comum presente em quase todos os grandes clubes que fracassaram na semana passada. Esse fator em comum é a aposta nos chamados "medalhões", jogadores que, em geral  já não brilham tão intensamente quanto no passado, mas, por força da fama adquirida, são contratados como soluções e, alguns, ganhando salários bastante altos. Por vezes a contratação é simplesmente o retorno a um clube de um velho ídolo de conquistas passadas. Ocorre que, no futebol, o tempo passa muito depressa e, assim, o ídolo de meia dúzia de anos atrás pode ser, hoje, apenas um espectro do que foi em seus melhores dias. O Flamengo talvez seja o exemplo mais eloquente. Repatriou Ronaldinho por uma fortuna, mas o jogador, tal e qual já vinha fazendo há pelo menos cinco anos, mostra-se mais interessado na sua movimentada vida fora do campo. No gramado, seu futebol continua pífio, e a torcida, já sem o encantamento demonstrado quando de sua chegada, começa a vaiá-lo. No Fluminense, veteranos como Deco e Souza, apesar dos polpudos salários, praticamente não jogam, seja por constantes lesões ou por baixo rendimento. O Palmeiras achou que resolveria sua crônica falta de qualidade simplesmente trazendo de volta seu último grande ídolo, Valdívia, que não é veterano, mas, extremamente genioso, logo entrou em rota de colisão com o não menos temperamental técnico do clube, Luiz Felipe. O Cruzeiro também apelou para jogadores rodados como Gilberto e Roger. Este último, no jogo que decidia a classificação do clube para as quartas de final da Libertadores, foi expulso, fato que contribuiu para a eliminação do Cruzeiro. No Inter, a insistência com jogadores das campanhas vitoriosas de 2006 também cobrou seu preço. Índio, ao que parece, já foi barrado, mas Bolívar e Tinga continuam a ser prestigiados, ainda que mostrem estar se encaminhando aceleradamente para a aposentadoria. Por sinal, outros jogadores do Inter de 2006 estão indo pelo mesmo caminho. Fernandão deverá rescindir seu contrato com o São Paulo e Fabiano Eller, que chegou a retornar para o Inter e teve péssimo desempenho, está sem clube. O Grêmio talvez seja o único que não se encaixe exatamente nesse perfil. Sua desclassificação da Libertadores se deveu muito mais ao acúmulo incrível de lesões que mutilou seu grupo de jogadores. Ainda assim, já no primeiro jogo após a desclassificação, obteve uma vitória expressiva apostando num ataque de jovens. Não é coincidência. O Santos, único brasileiro que restou na Libertadores assenta a força do seu time em jovens revelações, não em veteranos renomados. O fato é que, quer por já estarem milionários e desinteressados, quer por já não ostentarem uma boa condição física, ou ainda por que sejam "marrentos", os velhos ídolos repatriados ou recontratados não dão um bom retorno. Os jovens é que seguram a barra. É assim no São Paulo, onde Fernandão e Rivaldo fracassaram e brilham Lucas e Casemiro.  No Grêmio,dos emergentes Leandro e Júnior Viçosa. No Santos, dos já celebres Paulo Henrique Ganso e Neymar. No Inter de Leandro Damião e Oscar. No Flamengo do ainda jovem, embora experiente, Tiago Neves. Jogadores vitoriosos de glórias passadas proporcionam agradáveis recordações, mas não resolvem no presente, nem garantem o futuro.