quarta-feira, 30 de março de 2011

Muitos queriam Adriano

O sempre polêmico centroavante Adriano é outro que está de volta ao futebol brasileiro, contratado pelo Corinthians. Nos últimos anos, sua carreira tem tido altos e baixos devido a seu comportamento fora de campo e a problemas emocionais. No seu clube anterior, o Roma, teve uma péssima passagem, de apenas oito meses, na qual pouco jogou e não marcou nenhum gol, o que culminou com a rescisão de seu contrato. Isso não desestimulou, no entanto, a que vários clubes brasileiros tentassem a sua contratação, conforme revelou seu ex-empresário, Gilmar Rinaldi. Grêmio, Fluminense, Vasco, Atlético Mineiro e Cruzeiro sondaram Rinaldi sobre a possibilidade de contratar Adriano. O empresário recusava as investidas afirmando que Adriano não estava pronto para voltar. Ocorre que, segundo Rinaldi, o ex-jogador Ronaldo Nazário, sem entrar em contato com ele, encaminhou a ida de Adriano para o Corinthians. Gilmar Rinaldi, mostrando-se magoado com a atitude de Ronaldo, deixou de representar Adriano, mas lembrou que, antes do jogador está o ser humano, que precisa completar o seu processo de recuperação física e que a torcida do Corinthians deve levar isso em consideração. Um fato, no entanto, chamou a atenção no relato de Rinaldi. As sondagens que o empresário recebia sobre Adriano partiam sempre de dirigentes, gerentes ou patrocinadores dos clubes. Só no caso do Grêmio ela foi feita diretamente pelo técnico Renato. Mais um dado para alimentar a idéia, sustentada por muitos, de que o poder de Renato, no Grêmio, vai muito além das quatro linhas do gramado.

Recepção apoteótica

O centroavante Luís Fabiano, que voltou para o São Paulo após jogar sete anos na Europa, foi recebido de forma apoteótica no Morumbi, onde 45 mil pessoas aguardavam a sua presença. Trata-se, sem dúvida, de um grande reforço contratado pelo clube, mas chama a atenção um número tão grande de torcedores para assistir apenas a sua chegada, sem que houvesse um jogo a ser realizado. Luís Fabiano é um jogador de qualidade, mas não é um craque de exceção, capaz de justificar tamanha mobilização popular. Mais que o entusiasmo natural de uma torcida pela volta de um ídolo, a recepção dada a Luís Fabiano em sua chegada talvez demonstre o quão carentes estão as pessoas de obterem emoção e satisfação em suas vidas, em geral marcadas pelas dificuldades e falta de perspectivas. O fato reforça, mais uma vez, a capacidade que tem o futebol de canalizar expectativas e aspirações e de mobilizar intensamente as pessoas. Os maís críticos dirão que isso é alienante, que tamanha energia deveria ser empregada em favor de coisas mais consequentes. Porém, ao se envolverem a tal ponto com seus clubes e ídolos, os torcedores só estão em busca, ainda que por via indireta, daquilo que a vida insiste em negar para a maioria, ou seja, a perspectiva da vitória, da glória e a consequente sensação de realização.

terça-feira, 29 de março de 2011

Casamento exótico

A cerimônia de casamento em que os noivos estavam vestidos como os personagens Schreck e Fiona, realizada em Garibaldi, no interior do Rio Grande do Sul, ainda repercute em todo o país. Não pretendo abordar a questão sob o prisma religioso, já que a Diocese de Caxias do Sul, sob cuja jurisdição está o município de Garibaldi, protestou contra o fato e recriminou o padre que oficiou o casamento. Não professo nenhuma religião e, portanto, passo ao largo de tal enfoque. O que me chama a atenção é o nível de infantilização demonstrado pelo casal ao escolher vestir-se como personagens de um desenho animado. O poder da chamada indústria cultural é, sabidamente, muito grande, mas em se tratando de pessoas em idade adulta, tal atitude beira o patético. Nota-se, também, mais uma vez, a influência do entretenimento de massa americano sobre os brasileiros. Para quem analisa pela questão religiosa, a cerimônia talvez seja considerada desrespeitosa. Para quem olha pelo senso comum, parece mais próxima do rídiculo.

Rudi Armin Petry

O Grêmio perdeu, na tarde de hoje, um dos seus dirigentes históricos, Rudi Armin Petry. Presidente do clube nos anos de 66 e 67, Petry marcou época no futebol gaúcho pelo modo como se dirigia a torcida em suas entrevistas e por ter cunhado a expressão "assuntos de economia interna" para se referir a temas que não deviam transpor os muros do clube. Sua influência foi tão marcante que Fernando Carvalho, considerado o maior presidente da história do Inter, revelou ter se inspirado nele ao usar expressões como "boa tarde a todos, em especial a torcida do Internacional", tal e qual Petry fazia em relação a torcida do Grêmio. Petry teve uma longa existência, de 91 anos. Mesmo depois de sua passagem pela presidência continuou atuando na vida do clube, tendo, inclusive, integrado o departamento de futebol já com a idade de 84 anos. Foi um dos grandes vultos do futebol gaúcho.

Homofobia e racismo

O deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) é uma figura conhecida no parlamento brasileiro por suas posturas fascistas e antidemocráticas. Defensor ardoroso da ditadura militar, adota, permanentemente, um discurso marcado pelo machismo e arraigado conservadorismo. Dessa vez, no entanto, Bolsonaro extrapolou. Em participação num quadro do programa "CQC", da Rede Bandeirantes de Televisão, levado ao ar na noite de ontem, respondendo a uma pergunta, Bolsonaro afirmou que não corria o risco de ter um filho homossexual por ser um pai muito presente. Numa outra pergunta, feita por Preta Gil, sobre se admitiria que um filho seu casasse com uma negra, Jair Bolsonaro disse que não iria discutir promiscuidade com a cantora. Numa só ocasião, Bolsonaro mostrou-se homófobo e racista e seus destemperos verbais não podem mais ser tolerados. Preta Gil já declarou que pretende processá-lo, no que está muito certa. A Câmara dos Deputados não pode ficar indiferente ao fato e deve encontrar a forma adequada de punir Bolsonaro. Declarações tão odiosas e intolerantes não podem passar em branco. O que não consigo entender, porém, é como alguém que defende idéias tão reacionárias e torpes pode obter sucessivas reeleições. Bolsonaro é a prova de que as forças que levaram o país a passar por 21 anos de uma ditadura cruel, que, em seus porões, torturou e matou quem se lhe opunha, continuam atuantes. Saber que, no caso de Bolsonaro, isso se dá através do voto, é incompreensível.

O fim de uma luta

A morte do ex-vice-presidente José Alencar, na tarde de hoje, é o desfecho inevitável de uma luta inglória contra uma doença implacável. Era apenas uma questão de tempo. Não havia como Alencar vencer em definitivo uma batalha contra o câncer que durou quase quinze anos. Suas recorrentes internações e muitas cirurgias deixavam a todos espantados, pois Alencar seguia lutando, não desistia. Porém, nem toda a vontade de viver do ex-vice-presidente, nem os muitos recursos médicos a que uma pessoa do seu nível tem acesso, foram capazes de mudar o final previsível dessa história. José Alencar se foi, deixando uma trajetória de sucesso como empresário e político, mas, mais do que tudo, uma demonstração poucas vezes vista de tenacidade e de destemor diante de tamanha provação a que foi submetido. Como todos nós, Alencar tinha defeitos e limitações, mas seu final de vida, sua saída de cena, foi dos mais dignos. Lutou pela vida até o limite de suas forças, na busca de uma vitória que sabia ser inatingível. Não jogou a toalha. Permaneceu no ringue. Deixou o exemplo de que não importa o quão adversa seja uma situação, deve-se perseverar na busca da superação.

segunda-feira, 28 de março de 2011

O público e o privado

Os veículos da grande imprensa brasileira tem se referido com insistência, nos últimos dias, a tentativa do governo federal de destituir o presidente da Vale, a maior empresa privada brasileira, Roger Agnelli. A suposta intenção é tratada como algo quase criminoso, pois tais orgãos de imprensa julgam ser uma indevida interferência estatal na esfera privada. Os defensores do neoliberalismo acham, por certo, muito natural que a Vale, antes estatal, tenha sido uma das tantas empresas privatizadas pelo governo FHC, em troca de moedas podres, num atentado ao patrimônio público. Agnelli é exaltado, por exemplo, pela revista Veja, na edição dessa semana, como "um executivo focado no negócio e pouco permeável a ingerências governamentais". A revista argumenta que, por diversas vezes, Agnelli, teria contrariado os "cardeais petistas".Um dos motivos de tal contrariedade foi a demissão de 1300 funcionários da Vale no auge da crise financeira mundial. Claro, pela singular lógica neoliberal, o governo deveria ficar indiferente a tal volume de demissões, pois o assunto não lhe diz respeito. A publicação acrescenta que  o governo tem a mineradora como uma "indutora do desenvolvimento", no que denomina  de velho linguajar estatizante, mas que a Vale insiste em cumprir seu destino de empresa privada e fazer o que é bom para os acionistas. Na maneira privada de enxergar o mundo, uma empresa tem é que gerar lucros e remunerar seus acionistas. Jogar 1300 funcionários no desemprego é algo, por certo natural, faz parte do negócio. Pois quero dizer que o governo faz muito bem em interferir na Vale. Não me sensibilizam os argumentos de que Agnelli mais que decuplicou o lucro da empresa e multiplicou seu valor de mercado por quase vinte, tornando-a a segunda maior mineradora do mundo, como afirma a mesma revista Veja. Empresas como a Vale tem sim de serem indutoras do desenvolvimento, não beneficiando apenas acionistas privados, mas servindo como mola propulsora do crescimento do país. Por isso mesmo, o governo deveria ir mais além e não apenas influir para a troca do presidente da empresa. Deveria reestatizá-la, restituindo um patrimônio de todos os brasileiros.

A lei ao pé da letra

Permanece, ainda, em todos os meios de comunicação, o assunto da aplicação da chamada "Lei da Ficha Limpa". Como se sabe, há alguns dias, o Supremo Tribunal Federal decidiu que a referida lei não pode ser aplicada em relação à eleição de 2010. O argumento utilizado é o de que a aplicação da lei já no ano de 2010, feriria o que estabelece o artigo 16 da Constituição, segundo o qual mudanças nas regras valem apenas na eleição do ano seguinte ao da promulgação da lei. Esta foi a posição defendida pelo relator da matéria, ministro Gilmar Mendes. A votação estava empatada em 5 x 5, até que o mais novo integrante da casa, ministro Luiz Fux, desempatou, votando com o relator. Assim, decidiu-se que a Lei da Ficha Limpa não é aplicável em relação à eleição do ano passado. Em sua argumentação, Gilmar Mendes disse que havia o risco de se abrir um perigoso precedente e de que Hitler e Mussolini também se basearam em alguns princípios éticos para justificar toda sorte de abuso. Para recordar os mais esquecidos, Gilmar Mendes é o mesmo ministro que livrou a cara do banqueiro Daniel Dantas e que concede habeas-corpus em profusão para corruptos notórios, alegando que não se pode criar um Estado policialesco. Foi Gilmar Mendes, também, que eliminou a exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista, comparando-a com a de cozinheiro, atendendo a uma velha aspiração dos proprietários dos meios de comunicação. Não demorou para que veículos da grande imprensa saudassem a decisão quanto a Lei da Ficha Limpa, exaltando o fato de que a Constituição foi respeitada. No entanto, cinco dos onze ministros do Supremo entenderam de modo diferente. O ministro Carlos Ayres Britto, por exemplo, disse que o candidato que desfila pelo Código Penal com sua biografia não pode ter a ousadia de se candidatar. Assim pensa, também, a maioria do povo brasileiro. O pior de tudo é que, devido a outras tecnicalidades e preciosismos jurídicos, até a aplicação futura da lei não está garantida, como advertiu o minsitro Ricardo Lewandovski. As leis, levadas ao pé da letra, ao que parece, só servem para garantir os interesses dos poderosos e frustrar as aspirações dos cidadãos.

domingo, 27 de março de 2011

Substituição de conselheiros

O Tribunal de Contas do Rio Grande do Sul terá de trocar três de seus sete conselheiros em 2011. A escolha do sete integrantes do orgão é feita com quatro indicações do Poder Legislativo, uma de livre escolha do Poder Executivo, e dois funcionários do quadro da instituição. As substituiçoes que terão de ser feitas esse ano seriam uma ótima oportunidade para alterar esse sistema de indicações. O Tribunal de Contas deve ser um orgão técnico e, por isso, não faz sentido a maioria de seus integrantes serem ex-deputados estaduais que ganham o cargo como uma espécie de prêmio ao final de sua carreira parlamentar, gozando das benesses de uma função vitalícia com aposentadoria integral. Já está mais do que na hora de eliminar as indicações políticas para quaisquer que sejam os tribunais. Tribunais são orgãos que precisam agir com independência, não podem estar atrelados a interesses dos poderes Executivo e Legislativo. Está nas mãos do governador Tarso Genro a oportunidade ímpar de alterar esse procedimento. Os conselheiros do Tribunal de Contas deveriam ser, todos eles, oriundos dos quadros da instituição. Mover esforços para que isso se torne realidade é apenas uma questão de vontade política por parte do governador. Claro que qualquer ação nesse sentido contrariaria muitos interesses, mas é justamente nessas horas que se distingue o estadista do governante comum. O primeiro opta pelo interesse maior da sociedade, o segundo pelas conveniências do jogo político. Seria uma oportunidade, também, para o Rio Grande do Sul, sempre tão orgulhoso de seus feitos, dar um belo exemplo a ser seguido em todo o Brasil.

Realidades distintas

No que diz respeito ao Campeonato Gaúcho, Grêmio e Inter, como ficou claro na rodada do final de semana, vivem realidades distintas. Enquanto o Inter, no sábado, empatou em casa, por 0 x 0, com o modesto São Luiz, de Ijuí, o Grêmio, fora de casa, venceu o Pelotas por 3 x 1. O resultado do Inter ainda tem o agravante do adversário ter jogado, desde os 40 minutos do primeiro tempo, com um homem a menos, devido a uma expulsão. O Grêmio, além de ter ganho o primeiro turno, já obteve a maior soma na contagem geral de pontos na competição, o que lhe garantiria fazer em casa o segundo jogo de uma hipotética decisão de campeonato. Além disso, com a campanha que vem realizando, é possível, ainda, que o Grêmio também vença o segundo turno, o que lhe daria o título do Gauchão sem a necessidade de uma decisão. Em relação ao Inter, parece claro que o técnico Celso Roth e os jogadores não conseguem se motivar para as partidas do Campeonato Gaúcho. Por mais equívocos de escalações e de esquemas que o técnico possa cometer, com o grupo de jogadores de que dispõe, o Inter teria de vencer o São Luiz no Beira-Rio. Os contínuos insucessos no Gauchão demonstram claramente que o problema maior do Inter é anímico. O técnico e os jogadores não esperavam ter de assumir a disputa do Gauchão, que estava reservada para o extinto time B, e, agora, não conseguem encontrar a mobilização necessária para jogar a competição. Resta saber se a torcida e a diretoria terão paciência para lidar com essa situação. Afinal, futebol é resultado, seja qual for a competição em disputa.